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Sujeito a críticas

Luiz Carlos Merten

03 Março 2015 | 10h30

Revi nos últimos dias, na TV paga, os filmes Príncipe da Pérsia – Areias do Tempo, Código da Vinci e Cruzada. Quero dizer que, mesmo correndo o risco de ser desqualificado por vocês, tenho sempre o maior prazer de acompanhar as aventuras de Jake Gyllenhaal no tempo, e na boa companhia de Gemma Atherton e Ben Kingsley. Príncipe da Pérsia baseia-se num game, mas certamente não obteve na bilheteria o resultado esperado. Não virou série. Participei da junkett, entrevistando o produtor Jerry Bruckheimer e o diretor Mike Newell. Bruckheimer anda em fase de maré baixa, e se Areias do Tempo não foi um estouro pelo menos não foi um fiasco tão retumbante quanto Lone Ranger, em que Johnny Depp faturou, entre salário e percentual, algo como US$ 40 milhões. Apesar de todo o sucesso dele na série Piratas do Caribe, não creio que Depp valha tanto na bilheteria. É um desses equívocos da indústria, como foi Demi Moore, numa certa época. Depp pode até funcionar num registro autoral, como nos filmes de Tim Burton, mas tirando a afetação de Jack Sparrow é um sujeitinho insuportável – sorry. Mesmo assim, tenho o maior respeito por Bruckheimer, que dispensou os efeitos computadorizados e construiu cenários, filmou no deserto, procurou fazer a experiência de Príncipe da Pérsia a mais real possível. Acho bem interessante a forma como o cinemão absorve os conflitos de tempo e espaço de Alain Resnais. Flash-backs, flash-forwards – a narrativa avança, recua, cria um espaço imaginário e, no limite, o príncipe Jake viaja sem sair do lugar e ainda consegue flagrar o momento da traição do vizir. O papel de Ben Kingsley tem tudo a ver com o do diretor do asilo de Ilha do Medo, o mais manipulador dos filmes de Martin Scorsese, e que mesmo assim tem defensores. Eu me divirto mais com Mike Newell, que me parece mais honesto, fazer o quê. Rever Código da Vinci foi uma experiência bem interessante. Havia visto a adaptação do best seller de Dan Brown três ou quatro vezes, a primeira delas em Cannes, onde o filme teve direito a sessão especial, de gala. Não sei por que, mas na minha imaginação, após a revelação da identidade de Audrey Tautou, ela caminhava sobre a água e eu me constrangia de pensar naquilo, até porque gosto sinceramente de alguns filmes de Ron Howard. O fato de ele ter sido ator de Vicente Minnelli, George Lucas e Don Siegel faz com que tenha um olhar diferenciado sobre ele – reconheço -, mas seu western com Cate Blanchett, Desaparecidas, e o filme de automobilismo com Chris Hemsworth, Rush, são poderosos. Revi este ano em Berlim O Preço de Um Homem, de Anthony Mann, e pensava como a aspereza da paisagem tem a ver com a de Howard em Desaparecidas. Um dos filmes que espero com mais ansiedade este ano é justamente a nova parceria do diretor com o astro de Thor – o filme inspira-se na história real que deu origem a Moby Dick, de Herman Melville. Aliás, outro filme que esperava ‘nos cascos’, também com Chris Hemsworth, era o Hacker de Michael Mann – Blackhat no original -, mas parece, me contaram ontem, que vai ser lançado só em DVD no Brasil. Se Ron Howard já bebeu na fonte de Anthony Mann, e eu conversei sobre isso com ele, por que não na de Alfred Hitchcock? Revendo Código, pensava o tempo todo no ‘MacGuffin’, o artifício narrativo que está no centro de vários clássicos de espionagem de Hitchcock. Os personagens buscam algo que não existe ou não tem importância, é um pouco como buscar as provas de que Jesus Cristo e Maria Madalena fizeram sexo e tiveram descendência. Nada se prova, mas tudo se sugere – Martin Scorsese filmou o delírio de Jesus, descendo da cruz em Última Tentação – e, no limite, a busca é o mais importante porque tece os meandros do relato – drama, humor, mistério, suspense – e revela a natureza das pessoas, e isso é que vale. Silas, na interpretação de Paul Bettany, é o melhor personagem e quando ele morre, traído, sua frase é admirável – ‘Sou um fantasma’. O filme é sobre fantasmas – da ciência, da religião -, que Robert Langdon/Tom Hanks expõe com rigor, malgrado o tom fantasioso. E eu ainda pensei uma coisa. Ainda bem que estamos falando do homem chamado Jesus. Já pensaram se fosse aquele outro senhor, Maomé? O sangue já teria esguichado, e não seria na tela. Finalmente, Cruzada. Mesmo sendo o mais fraco dos três, tenho de admitir que aquele rei carcomido pela doença e que esconde o rosto com uma máscara de metal mexe comigo. Saladino é um grande personagem e, em pleno cerco de Jerusalém, quando ele diz que a cidade não vale nada, e isso é tudo, acho maravilhoso. A guerra de Cruzada é bem filmada e complementa a de Falcão Negro em Perigo, que eu sei que tem gente que detesta, mas eu não. Ridley Scott fez um filme inteiro sobre os 24 minutos iniciais de O Resgate do Soldado Ryan, de Steven Spielberg. A guerra em toda a sua crueza, sem justificativas nem psicologismos. O oficial norte-americano até tenta contestar, quando o somali lhe diz que aquela não é sua guerra. Retruca que aquilo não é uma guerra, mas um genocídio. A intervenção, que teria uma uma justificativa humanitária, vira carnificina, as entranhas do soldado, suas vísceras, ficam à mostra. No final, outro dos soldados, Hoot, diz. ‘Quando me perguntarem ‘por que fizeste?’, não vou responder. Não entenderiam. Não entenderiam que é pelos homens que estão a nosso lado, e nada mais. Nada mais.’ A frase poderia ser de qualquer integrante do wild bunch de Sam Peckinpah em Meu Ódio Será Sua Herança.