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Suassuna e o Auto do Reino do Sol

Luiz Carlos Merten

15 Setembro 2018 | 11h46

No final de Suassuna – O Auto das Barca do Sol, os integrantes da Cia. Barca dos Corações Partidos agradecem ao Teatro Porto Seguro por lhes permitir voltar a São Paulo com o espetáculo. Fui pesquisar e a bela montagem de Luiz Carlos Vasconcelos realmente já havia estado na cidade. Vi somente ontem à noite. Não sei se não estou querendo iniciar nova fase como crítico de teatro, mas estou gostando de registrar minhas impressões. Foi umas coizsa que começou com Gabriel Villela. Temo que, aqui a pouco, não me levem a sério. Estou gostando demais das coisas. Críticos sérios, tipo da F…, vão para não gostar. (A ginástica do meu amigo Inácio Araújo para escrever sobre O Banquete sem citar Otávio Frias Filho como personagem do filme de Daniela Thomas…) He-he. Na quinta, 13, no pós-aniversário, fui à tarde à Reserva Cultural para entrevistar o diretor português Pedro Pinho, de A Fábrica de Nada. O filme, que se alimenta da crise portuguesa, é maravilhoso. Conversava com o Pedro e, na mesa ao lado, tomando um café, estava Cássia Kiss Magro com um amigo produtor cultural. Ela é cinéfila de carteirinha, frequentadora da Reserva. Apresentei-os. Cássia me falou de um projeto de teatro que envolve Darcy Ribeiro, e outro para cinema, com histórias de Ariano Suassuna, a ser dirigido por José Eduardo Belmonte. Cássia me falou do humor de Suassuna, um humor que existe, mas que é preciso descobrir – o verdadeiro significado das coisas? O Auto do Reino do Sol conta a história de uma trupe de circo que atravessa o sertão nordestino, meio perdidos, buscando a vila de Taperoá. Um dos artistas é o próprio Dom Quixote, com sua espada de pau. Encontram o casal de fugitivos, os jovens que fogem das famílias poderosas e sempre em guerra, Fortunato e Moraes. Romeu e Julieta no reino do sol? Achei o espetáculo de uma beleza, de um colorido, de uma musicalidade acachapantes – há tempos vinha querendo usar essa palavra. No final, o sonho de Iracema, a intervenção de Nossa Senhora, têm tudo a ver com outro Auto, o das Compadecida, de Guel Arraes. Eu amo Luiz Carlos Vasconcelos e ele é um ator que teve sua fase de projeção no cinema brasileiro, mas depois surgiu Irandhir Santos, que começou a ganhar papeis que seriam de LC e eu já não vejo o meu xará com tanta frequência. Achei sua direção lúdica, o elenco, maravilhoso. Êta gente arretada, que canta que é uma maravilha. Nunca vi um espetáculo que integrasse, como esse, o cara que faz leitura de sinais para deficientes auditivos. Tinha de dar conta de olhar para tudo, incluindo o cara dos sinais, que era um espetáculo à parte. O cômico e o trágico que sempre atingem os personagens de Ariano são muito bem costurados por músicas e pela dramaturgias assinada por Bráulio Tavares. Fui pesquisar e se trata de um escritor, compositor, letrista, poeta, dramaturgo e pesquisador de literatura fantástica nascido em Campina Grande, na Paraíba, em 1950. Não é, claro, a primeira vez que vejo coisas do Bráulio, mas o curioso é que, cada vez que vejo o nome dele, penso em outro Tavares, o Gérson. Não sei se têm parentesco. Fui conferir agora na Enciclopédia do Cinema Brasileiro de Fernão Ramos e não encontrei o Gérson Tavares. Gérson dirigiu um filme que está sempre no meu imaginário – Antes, o Verão, com Jardel Filho e Norma Bengell, uma adaptação do livro de Carlos Heitor Cony, de 1968. Um homem bem sucedido constrói uma casa de praia em Cabo Frio, que será o símbolo de suas conquistas. Mas o vento, o sal e a areia começam a minar as estruturas da casa e ela rui, como a vida do protagonista. Antes, o Verão foi restaurado – tem belíssima fotografia em preto e branco de José Rosa -, mas não revi o filme, que acho que passou na Mostra. Será tão bom como me lembro? E por que é tão vivo, tão forte na minha lembrança? Norma, linda. Jardel, viril. Não sei o motivo – Freud há de explicar -, mas na minha cabeça Antes, o Verão se mistura com… Verão Violento, de Valerio Zurlini. O fracasso de nossos amores. Quero falar de teatro e o cinema vem. O Auto do Reino do Sol é magnífico. Fica até dia 23, no fim de semana que vem. E meu deu essa vontade de rever o Gérson Tavares.