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Sua Última Façanha (e as confissões de Kirk Douglas)

Luiz Carlos Merten

29 de março de 2020 | 11h24

Tive um amigo cuja família, e ele, adoravam programas de calouros. The Voice, Voice Kids. Lá vou eu na contracorrente. Estou confinado em casa (onde mais?, com a TV ligada o tempo todo. Vejo tudo, o tempo todo. Agora mesmo estou ligado no esporte da Globo. Olimpíada. Só não vejo BBB Brasil e The Voice Kids. Eu, hein? O programa é formatado para o brilho do júri, duvido que as pessoas se lembrem quem ganhou no ano passado, cantando o quê. Quando tento me lembrar de quem fez carreira a partir de programas de calouros, me vêm apenas Elis Regina – e eu a vi no Clube do Guri, em Porto – e o Emílio Santiago. Deve ter mais, claro, mas não imprimi no meu inconsciente. Tenho trabalhado bastante. Estou conseguindo manter uma rotina diária, o que é muito importante. Tenho de agradecer ao meu editor. Ubiratan Brasil que me pede coisas todo dia, para o impresso, o online. Não é que confie menos na memória, mas como estou em casa, cercado de livros, leio mais, pesquiso mais (nas fontes). Para os filmes na TV desta segunda, 30, estou planejando um destaque sobre Sua Última Façanha, que era o filme preferido do astro Kirk Douglas. Ouvi dele a confissão, quando foi homenageado com um Urso de Ouro de carreira em Berlim. Kirk morreu no começo de fevereiro, com 103 anos. Uma lenda. Mito? Risquei a palavra do meu vocabulário. Pois bem. Resolvi conferir o que Kirk diz sobre isso em sua autobiografia, O Filho do Trapeiro. Terminei relendo ontem quase todo o livro. Filho de judeus russos paupérrimos, Issur – seu verdadeiro nome – encontrou na ‘América’ a terra do sonho. Ficou milionário, mas, por confiar num agente a quem considerava como um pai – e que lhe tomou tudo -, voltou ao zero, para se reerguer. Adorei uma frase dele. “Sabe como é que se diz vá se foder em Hollywood? Confie em mim.” Sou muito ligado no tema da quebra de confiança, que está no centro da obra de Arthur Penn, de Alan J. Pakula. Tinha horas em que não acreditava no que estava lendo. Produtor, Kirk Douglas tende a minimizar a contribuição dos grandes diretores com quem trabalhou. Poupa Vincente Minnelli (3 filmes), Richard Fleischer (2). Não poupa Stanley Kubrick, que quase arruinou, segundo ele, Glória Feita de Sangue, propondo um final ‘comercial’ e revelando a sua verdadeira face de fdp, ainda segundo Kirk, ao se propor a assinar o roteiro de Spartacus, já que Dalton Trumbo não podia fazê-lo, por estar na lista negra do macarthismo. Por aí vai. Você já ouviu falar que Michael Douglas era sexual addict. Papai também era. Priápico. Kirk conta histórias divertidas, outras nem tanto, de confusões em que se meteu por seguir seu impulso sexual. Chegou a considerar Jeanne Moreau para o papel de Varinia (em Spartacus). Chegou a encontrá-la em Paris. Foram dançar, ele conta que manteve certa distância. A aura de sensualidade que emanava de Jeanne era tão grande que não aguentaria, se se encostasse nela. É fofoqueiro. Conta como os irmãos Julius J. e Philip G. Epstein, roteiristas do clássico Casablanca, esculpiram a lenda de amantes imbatíveis em Hollywood. Um deles ia para a cama com alguma mulher e o outro o substituía. Revezavam-se a noite toda como se fossem um só e assim esculpiram a lenda das múltiplas gozadas. Dedica quase uma página a Mia Farrow, talvez a atriz mais inteligente (e perspicaz) que conheceu na vida. Sobra para o Rio. No carnaval de 1963, Kirk e a mulher, Anne, estavam na cidade maravilhosa. Foram a um baile a fantasia, ele vestido com a túnica de Spartacus, cercado de seguranças. De repente, sentiu que o apalpavam lá embaixo. Segurou a mão e a puxou, era de um segurança. Sobre seu filme favorito, Kirk credita os méritos de Lonely Are the Brave, título original, ao roteirista Dalton Trumbo e ao elenco. Conta que contratou David Miller como diretor e se arrependeu – era o único que não estava à altura dos demais elementos da equipe.