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Strindberg!

Luiz Carlos Merten

11 de março de 2013 | 09h16

Em Porto Alegre, ao contrário de meu amigo Tuio Becker, não era muito ligado em teatro. Via ocasionalmente alguma montagem de Luiz Arthur Nunes, a nova estreia do Teatro de Arena de Jairo de Andrade ou as provocações do Oi Noi Aqui Traveiz, com suas reinvenções de Qorpo Santo que fizeram do grupo a versão local do Oficina (pelo menos no meu imaginário). O teatro surgiu e se instalou depois – feito um posseiro – em São Paulo, por meio de amigos. Através de Dib Carneiro, aproximei-me de Gabriel Villela, acompanho, mesmo que à distância, seu processo criativo, e tem sido um privilégio. Pode ser preconceito, mas não gosto de musicais (salvo exceções – no cinema também é assim), não superestimo os coletivos e também não subestimo os montadores mais clássicos. E o teatro tem me permitido fazer descobertas. Salmo 91, a peça de Dib Carneiro, teve uma primeira montagem brilhante de Gabriel Villela e depois a revi montada por grupos na Bahia e no Uruguai. É interessante ver a leitura de cada diretor, como as montagens ficam diferentes. Mas há sempre, no teatro, o texto, a palavra, como base de tudo. O que me aborrece em muitos coletivos é esse desprezo pelo texto e a primazia do processo, como se bastasse colocar a trupe na rua e a coisa está feita. Teatro, sem dramaturgia, não há. Tergiverso porque fui ver Senhorita Júlia na nova montagem do Tapa, com direção de Eduardo Tolentino. Ele fez coisas belas, que me encantam. Estava com o Dib, encontramos Hector Babenco, ficamos de conversa, foi ótimo. A montagem… Gosto da cenografia (como sempre, da mãe do Tolentino) e me encanta ver como, apesar das reduções, o texto está lá, a fala final de Cristina, quando ela reprova a Jean seu desrespeito pelos patrões e diz que, sem ordem e disciplina, o mundo dela – o deles – perde o sentido. Essa fala tem seu contraponto no desabafo dele, quando a sineta do patrão aciona velhos condicionamentos pavlovianos e o criado se submete. São falas maravilhosas de Strindberg, que me fazem lembra o desabafo final, a amargura de Tio Vânia, de Chekhov, aquela antevisão de um futuro sem promessas. O texto de Strindberg está lá, os atores se esforçam –  o casal é bonito, não é ruim (não!), mas ainda é cru e existem áreas de atrito e angústia em Strindberg que ambos não tocam. Mas o nó górdio, para mim, é que eu queria mais erotismo, mais voltagem sexual. Depois da montagem de Cristiane Jatahy, o tom pudico de Tolentino, o lençol sobre o corpo dos amantes me pareceu um balde de água fria. Senhorita Júlia! A trágica história do envolvimento da aristocrática Júlia com o serviçal numa noite de festa, o solstício de verão, possui uma beleza (e densidade) sem par. A peça virou filme de Alf Sjoberg com Anita Bjork no começo dos anos 1950. Venceu o Festival de Cannes – na época, acho que 1951, ainda não havia a Palma de Ouro. Era o Grand Prix. Sjoberg eliminou os flash-backs e fez com que passado e presente coexistissem nas mesmas imagens, um procedimento que Ingmar Bergman repetiu em Morangos Silvestres e do qual Paul Newman se apropriou em Rachel, Rachel. Houve depois a Miss Julie de Mike Figgis, com Peter Mullan como o criado, e a versão de Sérgio Silva, Noite de São João, que deu a Marcelo Serrado o prêmio de melhor ator em Gramado. Vou dar um tempo, esperar pelo aquecimento da montagem, do elenco, e rever Senhorita Júlia. Mesmo que, eventualmente, me decepcione de novo, a beleza do texto – de certas frases – me permitirá reencontrar a genialidade de Strindberg, e isso sempre é bom.

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