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Stanley Donen, muito talento e pouca sorte?

Luiz Carlos Merten

24 de fevereiro de 2019 | 09h40

Saí ontem de casa no fim da manhã e passei meu sábado na rua. Emendei o almoço com filme, uma passagem pelo IMS, mais filme, peça e no meio de tudo isso atravessei ou fui atravessado pelo Carnavelha, no Centro de São Paulo. Jantei no Gígio, como faço quase sempre que estou sozinho, e 11 horas, 11 e pouco da noite, já estava em casa. Havia um e-mail da Maria Fernanda Rodrigues, que estava no plantão do Caderno 2 – morreu Stanley Donen, Como? Stanley Donen ainda estava vivo? Pronuncia-se Dôna, diga-se de passagem. Não ouvia falar dele desde que recebeu um Oscar honorário, em 1997, e está no YouTube. É um daqueles momentos que vale rever. Donen dançando Cheek to Cheek com sua estatueta. Em parceria com Gene Kelly, fez – fizeram – dois filmes que pertencem à história – On the Town/Um Dia em Nova York e Cantando na Chuva. Mas brigaram, nunca mais se falaram, acho que ainda nos 50, e Kelly casou-se com a primeira mulher de Donen, Jeanne Coyne. That’s entertainment. Steven Spielberg disse que ele foi um de seus mentores. E Guillermo del Toro, num statement, acrescentou que era elegante, exuberante, um mestre da cor e um coreógrafo de primeira. “Tinha estilo e muita alegria.” Del Toro referia-se a um momento específico da vida e da carreira de Donen. Houve alegria, houve estilo, houve muito amor. Donen casou-se cinco vezes, e entre as mulheres estava Yvette Mimieux. Teve um rumoroso caso com a jovem Elizabeth Taylor e há anos vivia com Elaine May, que é outra que não sabia que estava viva. Sua vida ruiu com o fim do casamento com Yvette, em 1985. Os anos 1970 e 80 haviam sido uma sucessão de fracassos e talvez Donen pusesse a culpa no Brasil – Blame it on Rio, Feitiço no Rio, de 1984, foi seu último e rumoroso flop. Fechou um ciclo – foi vendo Flying Down to Rio, a dança de Fred Astaire e Ginger Rogers, que ele descobriu que era aquilo que queria fazer. Donen foi um ás do musical e, além da parceria com Kelly, dirigiu dois clássicos musicais de estilos um tanto diversos – o ‘rústico’ Sete Noivas para Sete Irmãos e o ultrassofisticado Cinderela em Paris. Dirigiu Cary Grant quatro vezes e Audrey Hepburn, três. Com os dois fez um de seus melhores filmes, o hitchcockiano thriller Charada, um musical sem canto nem dança, de 1963. E com Audrey, e o recém falecido Albert Finney, fez sua obra-prima – Two for the Road, Um Caminho para Dois, de 1967, absorvendo lições de Alain Resnais para desconstruir, temporalmente, a história de um casamento em crise. O casamento, por sinal, é o tema que percorre a obra de Donen, que investigou casais ao longo de toda a sua trajetória, incluindo um famoso par gay, formado por Richard Burton e Rex Harrison em Os Delicados, de 1969. Spielberg tem um gosto esquisito – ama o Donen de Bedazzled, O Diabo É Meu Sócio, espécie de Fausto às avessas (segundo Jean Tulard), com Dudley Moore e Raquel Welch, que eu não me lembro de que seja tão bom assim, mas o próprio Donen considerava seu melhor filme. Donen tinha 94 anos. Leio que, em 2014, o Nickelodeon Theatre em Columbia programou uma retrospectiva de seus filmes com um título bem expressivo, A Lotta Talent and a Little Luck, Muito Talento e Pouca Sorte. Será que foi isso?