As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Spielberg, pensador da ‘América’

Luiz Carlos Merten

04 de novembro de 2015 | 13h00

Desliguei-me ontem da Mostra e, após o Ponto Zero, fui ver Steven Spielberg, que já está em cartaz há quase duas semanas e eu ainda não havia assistido a Ponte dos Espiões. Gostei muito, e mesmo assim, me decepcionei. Achei os letreiros finais anticlimáticos. Neles somos informados de que o personagem de Tom Hanks, que existiu de verdade, foi nomeado negociador pelo ex-presidente John Kennedy e salvou não sei quantas vidas – nove mil? – na crise dos mísseis de Cuba. Para a dramaturgia do filme, não importam. Só as três. A de Rudolf Abel, o espião russo, a de Francis Gary Powers, o piloto norte-americano, e a do estudante dos EUA que estuda economia em Berlim Oriental e é colhido numa armadilha num momento crucial, o da construção do infame Muro. Já escrevi mil vezes no blog que existe um Spielberg antes e um depois da trilogia sobre o 11 de Setembro. O Terminal, Guerra dos Mundos e Munique elevaram, para mim, o cinema dele a um outro patamar, o que foi confirmado por Lincoln. Spielberg não apenas cineasta, mas pensador político. Ei-lo que volta em Ponte dos Espiões. Tom Hanks, que se chama Donovan, é chamado a defender Frank Relyance, um espião russo preso da ‘América’. A expectativa de todo o mundo é de um julgamento pró-forma, com sentença (de morte) antecipada, mas Donovan leva a defesa a sério, e a um custo elevado – a segurança da própria família -, faz de tudo para inocentar Abel. Quando isso é impossível, luta para preservar sua vida. Queria saber o nome do estudante e fiz há pouco uma pesquisa na rede. Não encontrei o que procurava e, em contrapartida, vi que muita gente acha o filme patrioteiro, uma defesa do sistema de Justiça norte-americano etc etc. Não foi o que vi. Donovan usa o argumento de que os olhos do mundo estão sobre a América como pretexto para um julgamento honesto, mas o circo está armado e o clima de linchamento moral – do acusado, do advogado – é muito forte. Abel vai definir Donovan como o Sr. Obstinado, e ele é. Chamado para negociar com a URSS a troca de Abel pelo piloto cujo avião de espionagem foi abatido em território inimigo, Donovan obstina-se, de novo, em conseguir a libertação de Gary Powers e a do estudante preso em, Berlim Oriental. Para a CIA, o estudante não importa. O governo dos EUA só quer o piloto, que pode revelar segredos importantes, como Abel também, poderia, mas não fez. Só a obstinação de Donovan salva o garoto e, no fim, quando Powers, no voo de volta, senta-se ao lado do negociador – e percebendo como todos o evitam – diz em tom choroso “Eu não contei nada, nada’, toda a arquitetura dramática do filme converge para a frase que diz Tom Hanks. “Não importa o que os outros pensem ou digam. O que vale é a tua (sua) consciência.” É uma frase fordiana. A grandeza ética dos derrotados – dos acusados, dos que são colocados sob suspeita. Spielberg tem feito esses filmes grandes, e grandes filmes, para pensar a América no pós-11 de Setembro, colocando em discussão o que quase se perdeu com George W. Bush e seus asseclas do Departamento de Estado e do Pentágono. Mas a verdade é que esse clima de pré-julgamento e linchamento moral ultrapassa fronteiras nacionais e eu, às vezes, penso que Spielberg, mesmo sem saber, está fazendo filmes sobre o Brasil e aquela revista sinistra. Gostei muito de Ponte dos Espiões e, mesmo assim, me decepcionei. Gostei talvez menos que da trilogia, e do que Lincoln. O problema talvez esteja no roteiro dos irmãos Coen, no humor falsamente inteligente e que cria armadilhas emocionais para o público. Pode estar na tendência de Spielberg ao melodrama. No trem, em Berlim, Donovan vê os alemães que tentam fugir ser fuzilados no Muro. De volta à casa, no metrô, seu olhar acompanha as crianças que pulam muros. A América é melhor, sem dúvida, mas certamente não é por sua covarde maioria silenciosa, mas por homens que fazem a diferença. Como Donovan, como Spielberg. Creio que, mais que nunca, John Ford permanece com ‘o’ mestre’. Tem inspirado Clint, na medida em que Sniper Americano retoma a tragédia do solitário de Rastros de Ódio. Ponte dos Espiões me lembrou mais Liberty Valance, O Homem que Matou o Facínora. A lição de democracia daquele filme, na escola, é repetida aqui no encontro de Donovan com o agente da CIA. Um, irlandês, o outro, alemão. O que os une senão o respeito ao código de leis, à Constituição? O próprio nome, se não fosse real, teria de ser inventado. Existem personagens de Ford que se chamam Donovan em Depois do Vendaval e O Aventureiro do Pacífico/Donovan’s Reef. Dou-me conta de que achava que não tinha gostado tanto – a la folie, como dizem os franceses – de Ponte dos Espiões. Mas gostei, sim.