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Sorry, Bárbara

Luiz Carlos Merten

08 de agosto de 2016 | 09h14

Fiquei mortificado com minha capa de ontem do Caderno 2. Bárbara Paz recebeu-me no apartamento da Av. São Luiz, Sérgio Castro fez belas fotos. Havia uma dela contra a frase na parede – Amo-te – e a gata na mão, mas no momento em que ‘Matilde’ salta do seu colo. Achei deslumbrante. A efemeridade do momento… Conversamos sobre a saudade de Hector Babenco e os projetos de Bárbara que o envolvem – um documentário e um livro de poemas. Hector poetava, desde garoto. Li alguns dos poemas, escritos em espanhol, em velhos cadernos. A caligrafia e os textos vão mudando. Os poemas viram memórias… O espanhol ‘portunhaliza-se’. Creio ter dado conta de tudo isso, mas algo me incomodava. Sabia, tenho um sexto sentido, que havia um erro naquela capa. Mas qual? Se soubesse, corrigia. Não tenho paciência de reler o que escrevo. Começo a mudar. Sou jornalista, não acadêmico. Corro contra o tempo, gosto da pressão do fechamento. Numa hora, achei que o erro fosse a citação a Béla Tarr. Fico sempre em dúvida sobre o acento. Pesquisei na rede. Estava certo – om acento, mas o erro estava ali, na minha cara. No texto, cito Béla como romeno. É húngaro, e eu sei disso. Em Berlim, ao apresentar O Cavalo de Turim e dizer que estava abandonando a direção, ele falou na oficina de novos talentos que criou e é sua prioridade. Quando o entrevistei, por O Filho de Saul, que lhe deu o Oscar, Laslo Nemes se definiu como ‘cria’ de Béla Tarr. Bárbara me falou no preto e branco, disse que o húngasro é o cinema que mais a interessa no mundo. Eu coloquei romeno, sorry, mas quero crer que Barbara, quando vir Sieranevada, de Cristi Puiu, vai amar o cinema romeno. Em Cannes, este ano, havia três filmes romenos, dois na competição e o terceiro em Un Certain Regard (Dogs, de Bogdan Mirica). Meu preferido era o Puiu, mas o júri preferiu premiar Cristian Mungiu, por Baccalauréat. Esse Mungiu é o maior papador der prêmios. Três filmes em Cannes, três prêmios, incluindo a Palma de Ouro (por Quatro Meses, Três Semanas e Dois Dias). O incrível é que, ao pesquisar Béla Tarr, a primeira coisa que aparece é ‘cineasta húngaro’. Olhei o acento e não me liguei no resto. O que mais me mortifica é que o erro atinge meu melhor filme do ano. Estamos em agosto e nada nem ninguém move o Cavalo do topo do meu Olimpo em 2016. É ele seguido de Batman vs. Superman (sim!) e Aquarius, que vai estrear em setembro e espero que seja indicado como candidato brasileiro paras o Oscar. São filmes autorais que expressam a diversidade que me interessa.