Som ao redor argentino
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Som ao redor argentino

Luiz Carlos Merten

08 de fevereiro de 2014 | 22h00

BERLIM – Almocei com Karin Ainouz e, na sequência, ele me proporcionou um tour, mostrando as locações em que filmou A Praia do Futuro na capital alemã. Fiquei bem animado com o filme e espero que corresponda, embora o próprio Karin brinque e diga que nunca sabe como vou reagir aos filmes dele. Independentemente de ser um diretor talentoso, é um cara bacana. E com o Karin pode-se falar de mercado. Cheguei a dizer – foi a minha vez de brincar com ele – que, se continuar a falar da importância do mercado (mesmo que não pelo viés das estratégias de marketing), Tiradentes vai caçar o prêmio que lhe deu, não faz muito tempo. O carro da produção me depositou perto do Palast quase na hora de Monuments Men. Mesmo assim, cheguei uma meia hora antes, entrei e fiquei acompanhando pelo telão a entrada de George Clooney. Já disse que ele me cansa. Todo mundo cria uma persona, não só os atores, disse Christian Bale na coletiva de Trapaça. O problema é que a máscara colou em George e ele representa o tempo todo, menos quando está nos papeis que deve interpretar (essa foi maldade minha). No final da sessão, não saberia dizer se gostei do filme. Mas houve um motivo. Estavam na sala seis ministros de Estado da Alemanha, mais o último dos monuments men da realidade. Isso aqui – Berlim – foi, afinal, a capital do Reich e foi emocionante ver a ovação ao velhinho e também ouvir as piadas a todas as referências a Adolf Hitler, antissemitismo, os gloriosos mil anos do Reich. Já que o filme trata da tentativa de salvar obras de arte, cabia a pergunta – Hitler foi bom ou mau pintor? Um dos personagens diz que era bom e deveria ter continuado pintando, outro retrucou que era péssimo. O público veio abaixo. Achei a reação saudável. Dieter Kosslick, o diretor-geral e curador da Berlinale, já havia dito que os filmes deste ano confrontam os alemães com seu passado. Bem interessante – e melhor que a coletiva, em que George provocou verdadeira histeria. O tipo de pergunta que ele teve de responder – uma jornalista disse que foi à mesma festa que ele e estava acabada, mas George, na mesa, estava glorioso. Qual o seu segredo? Pode uma coisa dessas? Embora tocado pela reação do público e a importância, digamos, histórica da exibição para autoridades na Berlinale, a vacilação inicial deu lugar à certeza – o filme não é bom, sendo mais um que usa o foro de Berlim para ter mais mídia na hora do lançamento internacional. O que a maioria das pessoas implica é com essa revalorização do Exército norte-americano, salvando a cultura, a própria civilização ocidental. Clooney, até aqui, tinha feito filmes contra, críticos à xenofobia  da era George W. Bush. O que significa essa mudança? Essa glorificação da bandeira? De novo, Hollywood bate no peito e diz de onde vem a salvação. Ruim por ruim, o filme de ataque à Casa Branca de Roland Emmerich – e ninguém é mais pró-americano que ele – mostra que o perigo hoje vem do establishment militar, que tenta se reorganizar. Também achei cafona que Cate Blanchett interprete uma francesa. George Clooney não conseguiu Marion Cotillard ou preferiu fazer o filme no circuito fechado da brodagem? Tergiverso. Saí do Clooney e corri para a sessão de imprensa de El Sonido al Rededor, perdão Historias de Miedo, do portenho Benjamin Naishtat. O filme é O Som ao Redor da Argentina. Meio tratado sociológico – uma comunidade fechada, invasão da periferia, choque de classes, tem até os fogos de artifícios. Mas o filme de Kleber Mendonça Filho é mais bem estruturado. No catálogo do festival, está escrito que o filme de Naishtat se pretende uma metáfora da crise econômica que assola a Argentina. Os meios – e os políticos – exploram a insegurança criando um clima de paranoia, daí as histórias do medo, num tom quase de terror. Interessante, mas não bom. No Brasil, é uma certa imprensa que investe na paranoia e até propõe seus salvadores para o País. Haverá, mais adiante, uma master class para discutir a situação do cinema argentino. A expectativa, porém, é agora pelo outro concorrente da Argentina – La Tercera Orilla, de Celina Murga. O título internacional é The Third Side of the River. Será outra adaptação de Guimarães Rosa, depois da de Nelson Pereira dos Santos? A similaridade do título não deixa de ser intrigante.

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