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Soltando o verbo

Luiz Carlos Merten

28 de setembro de 2016 | 07h27

BRASÍLIA – Estou me despedindo do 49.º festival e, embora não tenhamos assinado nenhum termo de confidencialidade, não quero postar sobre as eventuais disputas internas do júri de longa, que integrei, mas de alguma forma vou terminar cometendo uma inconfidência. Embora estivesse num júri, lavaram minha alma prêmios outorgados por outros dois júris do festival. O da crítica, para Rifle, de Davi Pretto, e o que um júri de documentaristas de Brasília deu para Vinte Anos, de Alice de Andrade, e que foi entregue por Vladimir Carvalho. O simbolismo dessa entrega me comoveu. O Candango dos ‘conterrâneos’ para aqueles cubanos exterritorializados, e exilados na própria terra, exilados na América, na Costa Rica, porque carregam Cuba no coração. Já havia, naquele belo filme de Laurent Cantet, essa dor. Amei Vinte Anos e adorei quando, no debate, Alice disse que era boa de casting e se orgulhava dos casais – de seu curta Luna de Miel – que havia selecionado para o longa. São (não) atores maravilhosos. E o mais bacana, para mim, é que não havia gostado, ou não havia gostado particularmente, dos filmes anteriores de Alice de Andrade e Davi Pretto. Castanha não me falou. Rifle foi uma descoberta. O filme mais bem dirigido do 49.º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Pronto, está dito. Pelo jornalista de cinema, que sou, sempre, mais que pelo jurado que fui, e já passou. Sei que a jovem crítica do Rio Grande me acha louco quando digo que é possível gostar do cinema ‘fordiano’ de Tabajara Ruas e do urbano, ‘nouvelle-vaguiano’ de Fabiano de Souza. Um desses amigos queridos me disse ontem, meio brincando, que John Ford revira-se na tumba cada vez que digo isso. Como as putas, vamos deixar o velho em paz. Para mim, e de uma forma muito pessoal, a descoberta de Rifle foi o fato de perceber, de uma maneira tão clara, que o que nos representa, a nós, gaúchos, na contemporaneidade, é o gaúcho a pé de Cyro Martins, representado no garoto do filme. Nunca havia tido, de forma tão forte, essa certeza. O letreiro final de Rifle faz agradecimentos especiais a John Ford e Abbas Kiarostami, que, de certa forma, estão no filme. Mas o que me encantou foi a visceralidade à Bruno Dumont, aquele encontro pungente na estrada, do protagonista e do outro jovem errante, que pega num rifle imaginário e, de certa forma, o desdobra. Mais até que os filmes de índios (Martírio e o injustamente martirizado Antes o Tempo não Acabava), Rifle e Vinte Anos foram os filmes que, para mim, melhor expressaram a opção da curadoria pela extraterritorialidade. Sorry, posso ser, ideologicamente, guarani cayowá, nesse momento crucial de nossa história, mas sou um cara urbano e minha vivência pessoal me aproxima mais dos outros dois filmes. Vocês vão entender quando virem o Rifle, e Vinte Anos, espero que logo, na Mostra, por exemplo. Precisava escrever isso. As palavras, represadas, me queimavam. Agora, posso pegar meu avião de volta.

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