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Soldado ‘azul’

Luiz Carlos Merten

17 de julho de 2012 | 13h56

Fui procurar nem me lembro mais que DVD no site da 2001 e vi que foi lançado ‘Quando É Preciso Ser Homem’, o Soldier Blue de Ralph Nelson, com Peter Strauss e Candice Bergen. Ralph Nelson! Houve um tempo, nos anos 1960, em que ele dispunha da reputação de grande diretor de atores, já que Sidney Poitier (em ‘Uma Voz nas Sombras’) e Cliff Robertson (em ‘Os Dois Mundos de Charly’) ganharam Oscars em filmes que realizou. Não deve ter sido por outro motivo que Alain Delon o escolheu como diretor de seu filme de estreia em Hollywood, ‘Once a Thief’, A Marca de Um Erro. Nelson veio da TV e estreou em Hollywood com ‘Réquiem para Um Lutador’, pesado drama de pugilismo interpretado por Anthony Quinn. Não gosto muito de ‘Duelo em Diablo Canyon’, mesmo que o western seja famoso por trazer Sidney Poitier como o primeiro pistoleiro negro de Hollywood – é curioso, mas ninguém pergunta isso a Quentin Tarantino, a propósito do Jamie Foxx de ‘Django Unchained’ –, e também não gosto de ‘Quanto Vale Um Homem’, em que Steve McQueen cria o personagem mais irritante e melancólico de sua carreira. Nelson fez também ‘Os Heróis não se Entregam’, com Charlton Heston como maestro de uma orquestra na Europa ocupada pelos nazistas e que resiste ao oficial Maximilian Schell, outro filme que não me fala muito, mas confesso que sempre tive uma queda por ‘Quando É Preciso Ser Homem’. Em 1970, Sam Peckinpah já testara os limites da violência no western (com ‘Meu Ódio Será Sua Herança’/The Wild Bunch), mas os ‘críticos’ ainda acusavam Ralph Nelson de ser excessivo. Talvez fosse, mas como outros diretores de Hollywood, na época, ele estava tentando falar, metaforicamente, da Guerra do Vietnã – e do massacre de My Lai, que era o assunto que agitava e revoltava todas as consciências. ‘Quando É Preciso’ é sobre esse soldado da Cavalaria que se envolve com mulher (Candice Bergen) que foi resgatada dos índios. Os dois são outsiders, o romance é atravessado – no sentido de que não progride – e o relato evolui para uma cena que, em 1970, foi considerada inassistível por muitas almas sensíveis , o massacre, pela Cavalaria dos EUA, de uma aldeia inteira de peles-vermelhas.  O western focalizou muitos massacres, mas quase sempre de brancos por índios. Aqui, inverte-se a situação, os brancos são os bárbaros e a chacina é tão brutal que termina com o herói vomitando na cara do espectador. Sempre gostei do título original do filme – o soldado azul, por causa do uniforme da Cavalaria, mas ‘blue’ também pela melancolia que o acompanha, essa sensação de estar deslocado num mundo que lhe parece repugnante. Como será rever hoje ‘Soldier Blue’? Todo mundo se lembra de Jane Fonda como militante contra a Guerra do Vietnã, mas foi Candice Bergen, numa festa, quem se recusou a apertar a mão do então secretário de Estado Henry Kissinger, a quem chamou de criminoso de guerra. Nelson morreu em 1988, aos 72 anos. Ele ainda fez outro western que virou cult, ‘A Ira Divina’, com Robert Mitchum como padre descrente que pega em armas no quadro de um país revolucionário, presumivelmente o México.  Foi o último filme de Rita Hayworth e Leonard Maltin, em seu guia de filmes, diz que pode ter grande prazer assistindo a ‘The Wrath of God’ (título original) como exemplar daquilo que se chama de tongue-in-cheek, o diálogo livre, irônico, próprio da comédia. Fiz uma pesquisa rápida na rede para ver como se poderia traduzir a expressão e encontrei uma foto. Uma mulher (uma feminista?), vestida de freira, carrega um cartaz no qual se lê – ‘Thank god for Satan’ (Graças as Deus pelo Diabo). Blasfemo, mas genial.

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