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Socorro! O texto sumiu

Luiz Carlos Merten

25 de junho de 2020 | 11h17

Meus clássicos continuam. Não são só os filmes, são as suas circunstâncias. No outro dia, levantei-me e de um jato escrevi em torno de dez mil caracteres sobre El Chacal de Nahueltoro. Quando digito assim em transe, tem muito erro, letras trocadas, dobradas. Ao ‘limpar’ o texto, apertei sei lá que botão e… Sumiu! Jesus manso e humilde de coração, fazei meu coração semelhante ao Vosso. O mantra de Augusto Matraga é o meu. Repito todo dia ao ver/ouvir as últimas desse governo celerado. Ontem, o TCU – notem bem, o TCU – emitiu documento dizendo o óbvio – a nau está desgovernada. A ótica da família Bórgia no poder é mais ou menos a seguinte – ou fazemos do nosso jeito ou não brincamos mais. Leis, só as deles. O presidente sumiu – por hora. Acabaram-se as conversas com apoiadores. A verdade prevalecerá – é o que espero. De volta ao pesadelo – do texto que sumiu. Foram-se os dez mil caracteres de El Chacal. Respirei fundo e reescrevi. Cada um desses textos tem sido uma viagem para mim. Um reencontro com o sonhador que fui há quase 50 anos. Lembrei quando fomos ao Chile, Doris, minha ex, e eu. Salvador Allende no poder. Meninos e meninas, eu vi. Estava lá. A Unidade Popular sendo desestabilizada pela burguesia e pela intervenção do capital estrangeiro. O dólar a 70 escudos no câmbio oficial e a 700, até mil, no paralelo. Revi esse filme no Brasil, a partir dos movimentos nas ruas que levaram ao golpe de 2016 e à eleição de 2018. Miguel Littín! De Santiago e Montevidéu a viagem imaginária me levou a Buenos Aires, em 1974, quando assisti a La Patagonia Rebelde, de Hector Olivera, e os montoneros faziam seu movimento nas ruas. Si Evita viviera seria Montonera. A Argentina de Perón, de novo. Sob Isabelita, marionete do Brujo. O golpe militar, de novo. Na sequência do Chacal escrevi sobre Beijo Amargo, o ‘meu’ Sam Fuller, e ontem sobre O Pagador de Promessas. Convivi tanto tempo, embora por um breve período, com Anselmo Duarte, indo a Salto nos finais de semana para entrevistá-lo para o livro da Coleção Aplasuso, que o texto fluiu, naturalmente. Quando foi aquilo? Há 15 anos, ou mais. Minha vida era outra – o mundo era. Ou então eu só achava que fosse. O produtor Aníbal Massaini pressionava Anselmo para que fizesse O Pagador com o Mazzaropi, para atrair público. Já pensaram? Entendo a importância histórica do Jeca, mas revi no outro dia Um Caipira em Bariloche – estava zapeando – e tomei um susto. Os conflitos sociais até que tinham certo interesse – a união dos sem terra -, mas o filme do Pio Zamuner era de 1973 ou 1903? Devia haver filmes mais avançados no começo do século passado. Tirando as cenas de Mazzaropi cantando, que transmitiam sua ligação com a terra – a carreta -, parecia… O horror, o horror! O curioso é que, no mesmo dia em que revi esse Mazzaropi, havia visto na Sessão da Tarde Os Saltimbancos Trapalhões Rumo a Hollywood. Quando entrevistei o Clint Eastwood em Burbank, no estúdio da Warner, ele me disse que um de seus filmes preferidos, entre os que dirigiu, era Bronco BIlly, com aquele circo mambembe, e aquela lona com a bandeira remendada dos EUA, que abrigava tudo e todos, até o desertor do Vietnã. Não sei até que ponto foi consciente do diretor João Daniel Tikhamiroff – com certeza, foi -, mas a lona do Renato Aragão também me pareceu muito generosa. Gostaria de poder falar com a Fatimarlei Lunardelli, que fez sua tese, não me lembro se de mestrado ou doutorado, sobre Os Trapalhões. Ela saberia entender esse gesto de carinho que não é apenas dirigido ao personagem – o tributo final -, mas ao próprio Didi. O post está enorme. Tenho muitas matérias para a edição de hoje. Preciso reentrar no trabalho. E, tão logo tenha tempo, vou iniciar outro ‘clássico’, sobre A Um Passo da Liberdade/Le Trou. Acordei inspirado para escrever sobre o Jacques Becker.

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