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Socorro! Interlagos?

Luiz Carlos Merten

07 Dezembro 2016 | 00h20

Bravo, Cristina Padiglione. ‘Disseste’, em bom português, tudo o que gostaria de ter escrito sobre essa decisão absurda de confinar a Virada Cultural em Interlagos. Vamos por etapas. Nem sempre consigo estar em São Paulo na Virada, que bate com Cannes. Mas, nas vezes de que participei, assisti a concertos memoráveis de madrugada, além de sessões de cinema igualmente memoráveis. Nada mais Boca do Lixo que assistir a O Bandido da Luz Vermelha num antigo cinema pornô como o Windsor ou ver faroeste italiano no cinema da Câmara. Nunca encontrei nesses locais nenhum crítico da ‘elite’. Esses frequentam a Cinemateca, quando vão, e é um belo prédio, que as pessoas deviam descobrir mais. Ando por aqui com André Sturm, nosso secretário confirmado de Cultura. Preferia-o como cineasta ou como programador do Belas Artes. Já deglutia com dificuldade a parceria com o Skaf, da Fiesp. Uma coisa leva a outra, e ei-lo integrado à equipe de João Dória. O prefeito, obviamente, foi eleito no bojo do movimento anti-PT. Empresário bem sucedido, transparente – li que vai trabalhar de graça. Desconfio de quem diz isso. Se vai trabalhar, tem de ganhar, ou aboliram o capitalismo e eu não soube? Além do quê, é sempre melhor dividir um salário que a fortuna. Desconfio 2 – passo seguido pela casa de Dória quando vou ao JK Iguatemi. Passei hoje, de novo. Penso sempre a mesma coisa. O cara isolou-se. Se fosse carro, seria blindado. A área é enorme. Os muros são indevassáveis e intransponíveis. Mas que diabo de riqueza é essa que não é transparente? Precisa se esconder desse jeito? A questão é que faz todo o sentido que o cara que habita aquele bunker, longe dos olhos dessa gente pobre, queira jogar a Virada naquele fim de mundo. Moro há 27 anos em São Paulo e nunca fui ao GP. É verdade que não iria nem que fosse na esquina de casa, mas uma coisa é o Centro, como espaço de reunião – Centro!, alô – e outra é Interlagos. Moro em Pinheiros, pego o metrô e em duas paradas estou no Centro. Para Interlagos, demoraria um pouco mais, e estou falando de Pinheiros. Agora, imaginem as demais zonas de São Paulo. O Centro, por definição, é sempre incomparavelmente melhor. Estava superpreocupado com a permanência do Circuito Spcine, frequentador que sou do Olido. Esse, Sturm vai manter, porque afinal, o Belas Artes faz parte do sistema. No plano Federal, não há jeito de os indicadores melhorarem. No municipal, é esse despautério. Como é mesmo que sempre digo? O horror, o horror. Não termina nunca. Estou a ponto de invocar Julinho de Adelaide. Chama o ladrão. Com as pessoas de bem, não está dando. Talvez porque não sejam, realmente, de bem.