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Sobrevivendo

Luiz Carlos Merten

11 de novembro de 2012 | 12h16

Há uma semana que não dou notícia, mas é que voltou. Na segunda passada, fui parar no consultório do dr. Daniel. Dificuldade para respirar, dores no peito, uma catarreira do cão. Entrei no antibiótico e fiz uma bateria de exames. Brincando, Daniel jogou pesado, Diz que ‘acha’ que não tenho câncer, mas precisa entender o que se passa com meu pulmão. Suspeita de alergia. A quê? Sala de cinema. Puxando meu histórico, ele mostrou como tenho tido essas crises – diagnosticadas ora como pneumonia, ora como sinusite – depois das minhas grandes maratonas de cinema, seja Berlim, Cannes, Rio ou a Mostra. Era o que me faltava. Na própria segunda, logo após a consulta com Daniel, tive de correr para o jornal, pois tinha uma entrevista acordada com Isabelle Huppert, que ela pediu para antecipar. Conversamos sobre Brillante Mendonza (‘Em Nome de Deus’), Marco Bellocchio (‘A Bela Que Dorme’), sobre o novo filme de Catherine Breillat que ela roda em Bruxelas e sobre Bob Wilson. Adorei a entrevista, que já saiu no ‘Caderno 2’. Aliás, foi uma semana de boas matérias, das quais gostei – o perfil de Júlio Andrade, que faz Gonzaguinha em ‘Gonzaga – De Pai pra Filho’, de Breno Silveira, foi outra. Gosto de Isabelle porque, sendo caracteristicamente uma atriz de ‘autores’, ela não tem nhenhenherim nem discrimina. Perguntei-lhe o melhor filme que viu recentemente, ela disse que não se lembrava de nada, mas aí acrescentou – ah, sim, como havia esquecido? ‘Looper’, com Bruce Willis e Joseph Gordon-Lewitt, do qual também gostei bastante, e não apenas como espetáculo de ação. Quando o assunto caiu em Bob Wilson, ela quis saber o que ele fazia em São Paulo. Falei na montagem de ‘A Ópera dos Três Vinténs’. Isabelle repetiu, já tinha me dito, que ele é gênio e que o encontro – humano, artístico – com Bob Wilson foi das grandes coisas que ocorreram em sua vida. Lembrou o elogio de Louis Aragon para o encenador e eu fui procurar o texto na internet, sobre a ópera sem música ‘La Mirada del Sordo’, de 1971. Lá, Bob Wilson revisava o surrealismo. Na ‘Ópera’, até de forma um tanto óbvia, é o expressionismo alemão. Vou enfiar os pés pelas mãos, mas é tanta gente a definir Bob Wilson como gênio… Pois eu ainda não usufruí o tal gênio. Aquele Beckett dele me pareceu muito meia boca e o Brecht não me pareceu muito melhor. Tudo muito impressionante. O preto e branco dominante no palco – Felipe Hirsch é cria de Bob Wilson? -, as figuras inspiradas em Mabuse, Caligari etc. O que me incomoda aqui, como incomodava no Beckett, é que Bob Wilson cria um espetáculo ‘perfeito’ que funciona como mecanismo de horlogeria. Gestos mecânicos, repetidos, talvez agora num registro mais caricatural (do que farsesco). O que vale para Beckett vale para Brecht? Não tenho tanta certeza e o ‘estranhamento’, para não falar em distanciamento, não me convenceu. Aliás, já tenho visto alguns Brechts, mas nunca nenhum me convenceu. Sou tentado a dizer que encontro mais Brecht no cinema de Joseph Losey do que nessas encenações que não me enriquecem. Sem dúvida que é belo ver ‘A Ópera dos Três Vinténs’, só não consigo me desfazer da impressão de que aquilo é déjà vu. De seguda mão, se me entendem. Mas não desisto. Vamos à Lulu de Wedekind, que Walter Hugo Khouri adorava – e Rolf Thiele emulou no seu filme expressionista com Nadja Tiller no começo dos anos 1960.

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