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Sobre snipers e santos

Luiz Carlos Merten

02 Março 2015 | 10h16

Fui rever o Clint no sábado à noite, na Sala Imax do Shopping Bourbon. Arrastei Dib Carneiro, que ainda não tinha visto o filme. Estava tão cheio que tivemos de sentar separados. Público de fim de semana é que nem motorista de fim de semana. Pego muito táxi e já estou acostumado a ouvir os profissionais reclamarem dos ‘domingueiros’. O casal que sentou do meu lado foi para um piquenique. Compraram pizza, refrigerante. Ela anunciou – ‘Amor, coloquei bastante queijo e tomate, como você gosta.’ Atenciosa, a moça. Chris Kyle mirando na mulher e no garoto e eles comendo gostoso, estalando os dedos, a língua. Barriga cheia, mergulhamos em American Sniper. Não por muito tempo, hélas. Na cena em que Kyle volta para casa para acompanhar o nascimento do filho, ela fez uma observação curiosa – ‘Não é bebê de verdade, é de cera.’ Realmente, nunca se vê a cara da criança e ela não se mexe. Dito isso, meus vizinhos de assento desinteressam-se do filme e ingressaram no BBB. Conversa fiada e pegação. Conto tudo isso só para chegar ao ponto. American Sniper não apenas resistiu a tudo, ao mundo ao redor, como ficou ainda melhor na revisão. Cruzam-se na tela John Ford e Otto Preminger, mas é o mais puro Clint. Dois Oscars e, quando mais merecia, o xerife não levou. Isso é Hollywood. Li/Ouvi em algum lugar que Bradley Cooper fez história como primeiro ator indicado ao prêmio da Academia três anos seguidos. Espero que seja indicado muitas mais, e que vença. Cara bom. Embora ressabiado, fui ver ontem Um Santo Vizinho. Ainda não havia assistido ao filme de Theodore Melfi com Bill Murray. Gostei, e não sei quem teria tirado dos cinco indicados para o prêmio (Michael Keaton?), mas Murray mereceria ter estado lá. Resolvi conferir na internet o que os coleguinhas tinham achado do filme. Bem-feito, os atores surpreendem, o tipo do feel-good movie, mas nada original etc. A tônica dominante – você já viu esse filme. É mesmo? Eu jurava que não, mas deve haver gente mais perspicaz que eu. O conceito só pode ser aplicado no mesmo sentido em que vale para um Yasujiro Ozu. À distância, todos os filmes de Ozu se parecem, mas, quanto mais você se aproxima. mais as diferenças saltam aos olhos. É um filme sobre um velho turrão e uma mãe estressada. O elo entre ambos é um garoto, o maravilhoso Jaaden Liebehrer, mais maduro que qualquer adulto em cena, incluindo o padre professor na Saint Patrick, que adorei. Muito bacana aquela história de santidade. Roberto Rossellini já havia feito grandes filmes sobre santos e demônios – Francisco, Arauto de Deus e La Macchina Ammazzacattivi. E já que estou falando de Rossellini, quero dizer – acho que já disse no blog – que o ‘meu’ Bill Murray não é o de Os Caça-Fantasmas, de Ivan Reitman, mas o de Feitiço do Tempo, de Harold Ramis, que, na essência, é um filme filosófico/rosselliniano (como o igualmente belo Sem Medo de Viver/Fearless, de Peter Weir, com Jeff Bridges). Adoro os detalhes de Um Santo Vizinho. Nosso santo homem, demasiado humano, dá lições de ética ao garoto, como não roubar da máquina, mas ele faz a mãe (Melissa McCarthy) pagar pela cerca que não derrubou e lhe cobra cada centavo das horas como baby-sitter. À mãe, o garoto diz que pare de reclamar do pai, que o problema é entre eles, não dele com o pai. Estranhei um pouco, no início, o sotaque russo de Naomi Watts, mas depois curti a personagem, a atriz. Melissa é ótima, num registro mais dramático, mas sem deixar de ser divertida. Mas o filme é do garoto e de Bill Murray. Num certo sentido, mas com uma persona própria, Murray é o sucessor de Walter Matthau como velho rabugento. E desta vez ninguém fez piquenique no Arteplex Frei Caneca. A plateia ria. Fazia tempo que não via o público rir com tanto gosto numa comédia.