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Sob Pressão, e quanto custa salvar a vida humana??

Luiz Carlos Merten

20 de abril de 2019 | 10h54

PORTO ALEGRE – Fui ao Rio na quarta para a junket da terceira temporada de Sob Pressão, a série de Jorge Furtado com direção geral de Andrucha Waddington. Reencontrei pessoas queridas – o roteirista Lucas Paraizo, que me apresentou a equipe que compartilha a escrita da série, Júlio Andrade, Drica Moraes, Marjorie Estiano, Andrucha, que me apresentou o filho Pedro. Conhecia-o menino. Está um homem e já dirige os episódios de números 5 e 12 da série de 14. Ouvi falar maravilhas da estreia de Júlio, o dr. Evandro, na direção, uma ousadia, porque ele narra seu episódio em planos sequências somente interrompidos pelos comerciais. Gostei muito do que vi. O primeiro episódio, que vai ao ar dia 2, abre-se com a greve dos caminhoneiros, no ano passado. Do macro ao micro. Dra. Marjorie, ou melhor, Carolina parte num atendimento, não tem nem gasolina, a cidade está travada. A radiografia do sistema de saúde brasileiro – na ambulância, um garoto que tem um espeto atravessado no peito. Tentam um, dois hospitais. O atendimento está lotado. Em desespero, ela adentra um hospital particular, um Sírio-Libanês do Rio. É enxotada, porque não tem plano, mas humilha-se pedindo ajuda e o colega resolve ajudar. Olha o spoiler. veja como. Todos ali, diretor geral, elenco, roteiristas, realizadores dos diferentes episódios, têm consciência de que o que estão fazendo é esfregar na cara do Brasil o que todo mundo finge que não vê. O descaso com o sistema de saúde. Mesmo países que estão na tradição do neo-liberalismo, como Inglaterra e França, possuem sistemas de saúde mais humanos e eficientes. Conheci o dr. Márcio Maranhão, inspirador da série, a partir de seu livro, um depoimento a Karla Monteiro. Recebemos, nós, os jornalistas, o livro. Li de uma sentada. Parte no voo de volta para São Paulo, o restante no voo para Porto Alegre. São 155 páginas – Editora Foz – das quais não consegui desgrudar o olho. Chorei vendo Sob Pressão, chorei lendo Sob Pressão. A miséria desse Brasil. A grandeza (fordiana) de derrotados como dr. Márcio, que vão ao limite lutando contra o sistema desumano. Lendo assim, parece até piegas, mas é real. O que nos salva é que ainda existem pessoas apaixonadas pelo que fazem, e que respeitam os outros. Os relatos de dr. Márcio. Seus plantões no superequipado hospital militar, que atende a uma minoria, e nas enfermarias públicas, onde dezenas gritam por socorro e os médicos têm de priorizar. É do jogo. Alguns são favorecidos, outros, não. O sistema endurece o médico, cria uma carcaça que o distancia do paciente. Sob Pressão, o livro, o filme, a série, é sobre os que resistem, os que não ficaram cínicos e ainda lutam pela dignidade de seus pacientes, rebelando-se contra a piada interna que diz que SUS é a sigla de Seu Último Suspiro. Em especial, essa terceira temporada tem como tema – quanto custa salvar uma vida? Logo no começo, dr. Márcio lembra um plantão do (Hospital) Souza Aguiar. Uma quinta-feira que havia começado dura, veloz. Entram os maqueiros porta adentro, carregando um jovem destroçado. ‘Esse é bandido, doutor’, disse o segurança. Não importava. A luta para tentar salvá-lo foi hercúlea, mas não tem muito respaldo no Brasil real onde famílias, suspeitos são fuzilados e policiais são condecorados por matar. O combate à criminalidade e o sistema de saúde são duas faces da mesma moeda. Tem de ver com educação, ou falta de, com malversação de recursos públicos. Dois dias de Jornal Nacional acabaram comigo. Estamos galopando, vitoriosos, em todas as estatísticas ruins do mundo. A barbárie está tomando (tomou?) conta desse País. O horror, o horror.

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