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Só quero me maravilhar…

Luiz Carlos Merten

30 de dezembro de 2013 | 10h10

Confesso que todas as vezes em que pensava nos meus destaques do ano, dois títulos me vinham e eram os pilares do edifício – Homem de Aço e Zarafa. Mas quando meu editor, Ubiratan Brasil, decidiu que teria de escolher cinco, e não dez, os dois ficaram de fora. Intimamente, senti como se estivesse cometendo uma traição ao deixar Homem de Aço de fora, ao optar por Gravidade. Ninguém entende minha paixão pelo Homem, de Aço. Tem a ver com aquele olhar de Kevin Costner no fim. E eu amo esses filmes enormes que têm espaço para o intimismo mais radical. Ontem fui ver pela terceira vez o Cuarón.  Fiz a escolha certa. Assistimos – Dib Carneiro foi junto – no Imax do Bourbon. Em tempos recentes, nunca vi uma plateia tão eletrizada por um filme. Nos raros momentos em que a barulheira parava na tela, o silêncio era, como se diz, sepulcral. E como estava à frente, quando me virava, de curioso, para testar as reações, nem uma só vez vi telas de celulares iluminadas, como as pessoas sempre fazem, para verificar mensagens. Já escrevi que a grande mudança que as novas tecnologias trouxeram para o cinema foi de mentalidade. De comportamento. Podem-se fazer filmes baratos, e há a mística da democratização. Mas permanece o dilema da distribuição e exibição – o nó górdio. Sempre se pode disponibilizar o filme no YouTube. Estou falando na perspectiva de quem faz. E na de quem vê? Cinema sempre foi fruição – o escurinho do cinema, o mecanismo de identificação projetiva. Sonhar acordado. Hoje, os jovens, principalmente, querem ver o filme, tomar refrigerante, comer pipoca e enviar mensagens pelo Twitter, pelo Facebook, pela pqp. O cinema está deixando de ser fruição para virar (mera) informação. Oh, sim, dá para entender. Mas o que há para entender em Marienbad que seja mais importante do que desfrutar a sensação de andar naqueles corredores, buscando, como o personagem de Giorgio Albertazzi, a mulher amada, para tentar convencer Delphine Seyrig de que, no ano passado… Assisti, ontem, ao milagre. A plateia inteira siderada. Sem rumo no espaço. Acompanhando o esforço de Sandra Bullock para voltar. O eterno retorno, tema por excelência do cinema norte-americano. Aquilo não é só um filme. É uma experiência – humana e estética – visceral. No final, todo mundo se perguntava – como eles fizeram? Devo ter, por aqui – estou em casa -, uma revista que comprei num aeroporto nos EUA, em que Alfonso Cuarón conta como o filme foi feito. Lembro-me de ter lido o começo. Ele chegou a pensar em filmar no espaço, mas seria muito caro, além de arriscado. Não tenho, pessoalmente, o menor interesse, a menor curiosidade de saber como Gravity foi feito. Só quero me maravilhar. Uma obra de pai e filho, Alfonso e seu filho Jonas Cuarón. A história de uma mãe amargurada pela perda da filha. Chorei copiosamente quando a personagem se despede da filha. Sandra Bullock, mais até que Cate Blanchett, deveria ganhar o Oscar. É excepcional, como o filme de Cuarón.