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Só Deus perdoa

Luiz Carlos Merten

24 de junho de 2013 | 17h54

Fui ver ontem ‘O Lugar Onde Tudo Termina’. É engraçado que minha ex, a Doris, tentou ver o filme em Porto Alegre, mas faltou força no Espaço Itaú e o conjunto de salas foi fechado. Aqui, consegui ver o filme de Derek Cianfrance com Ryan Gosling e Bradley Cooper. Ainda estou pensando se devo me regozijar por isso. É curioso como tem gente que, por princípio, tem má vontade com blockbuster e se recusa a ver o que está diante do nariz. Inversamente, fica tentando encontrar transcendência onde não há. No início, até que estava gostando do tal ‘lugar’. A narrativa divide-se em três blocos que dialogam entre si. No primeiro, Ryan é um motociclista que descobre que tem um filho (mas a mulher está com outro) e ele assalta bancos para criar um patrimônio para o menino. Estava gostando, ou pelo menos achando bem mais interessante do que a nova parceria do astro com o diretor Michael Winding-Refn, Only God Forgives, que foi, talvez, a maior decepção do Festival de Cannes deste ano. O interessante é que, em ambos, há um fatalismo na construção do personagem, uma impossibilidade de superação, que dá a tônica da persona de Ryan Gosling e o transforma, de certa forma, em êmulo de Marlon Brando. O fatalismo prossegue no segundo episódio, que parte de um confronto no final do primeiro. Cooper faz policial que vira herói (veja para saber como e por que) e, ao descobrir a corrupção na instituição, a combate não como um preceito moral, mas para sedimentar uma carreira política. O diretor Cianfrance bem que tenta tornar o personagem denso, e uma foto e um pedido de perdão contribuem para isso, mas… O terceiro segmento mostra o encontro improvável, e o confronto, entre dois jovens, filhos dos protagonistas das histórias anteriores. Como o ciclo fatalista não se rompe, Cianfrance retrata a ‘América’ dos perdedores. É como assistir à reprise do grosso da produção de Hollywood – não só a independente – de 40 ou 50 anos atrás. Um cinema velho, ética e esteticamente, que posa de novo. Não posso dizer que tenha gostado, mas gostei dos atores. E acho que Gosling, aqui, revela uma intensidade – além da força bruta – que vai na contramão da inexpressiva cara de pau que revela em Only God Forgives. O mais interessante é que as três histórias parecem a prova do que Winding-Refn expõe no título de seu novo tributo ao cinema de gângsteres

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