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Silvio e os outros, a nova fraude de Sorrentino

Luiz Carlos Merten

13 de agosto de 2019 | 09h08

Fui ver ontem no fim da tarde, na 8 1/2 Festa do Cinema Italiano o Loro de Paolo Sorrentino. Silvio e os Outros. Silvio é o Berlusconi, e quem faz o papel é Toni Servillo, quem mais? Antes de Silvio, Sorrentino introduz Sergio Morra – não, não é piada -, que sonha chegar ao ‘presidente’, ao centro do poder, fornecendo suas p… ao político. Silvio e os Outros não deixa de ser sobre a TV na Itália. Já gostei muito de Sorrentino, na época de As Consequências do Amor, O Amigo de Família e Il Divo. Muito briguei com meu querido José Carlos Avellar por causa dele. Avellar sempre percebeu a fraude, antes mesmo que Sorrentino começasse a fazer seu Fellini de segunda para encantar os americanos. Logo no começo, quando Sergio, interpretado por Riccardo Scamarcio, chega a Roma para sua primeira orgia, topa com uma mulher candelabro. La Dolce Vita! No final, uma grua resgata uma escultura de Cristo dos escombros do terremoto nos Abruzos. A Doce Vida, de novo, mas com a temporalidade invertida. O Cristo no começo de Fellini foi parar no fim do Sorrentino. Berlusconi é o papel que Servillo nasceu para fazer. Serlusconi, Berlusvillo. Ele chega a fazer dois – o político e seu sócio, que fornece a fórmula (‘O altruísmo é a melhor maneira de ser egoísta’) e também a chave para que ele volte ao poder, ‘corrompendo’, como se já não fossem corruptos, seis senadores para que votem o fim do governo atual e o elejam no próximo. (Hebe também compra uma briga com o Congresso, mas essa é outra história.) Il Divo, sobre Giulio Andreotti, tinha um pé na realidade, mas Loro é puro delírio, pura interpretação. Tudo é documentado, tudo é imaginado, informa um letreiro no começo. Sorrentino psicanalisa o complexo de inferioridade de Berlusconi. Ele é um monstro, mas é o retrato dos italianos. É venal e é inocente, e no limite, Sorrentino simpatiza com ele – a patética humanidade que Servillo impõe ao personagem, seu cheiro de velho, como diz a garota – porque são iguais. São puras encenações para impressionar, porque são vazios. O mais trágico para nós, brasiliani. Tem coisas que Berlusconi faz na tela e parecem cenas de um certo capitão brasileiro que venceu as eleições e se sente por cima acima do bem e do mal – ‘porra!’

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