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Sylvia Bandeira e as pernas de Marlene

Luiz Carlos Merten

16 de setembro de 2019 | 23h46

Nos três dias que estive no Rio, vi filmes e duas peças. Por uma questâo de conveniência – horário, local, mas também a personagem -, fui ver Marlene – As Pernas do Século, no Teatro Prudential, ex-Adolfo Bloch, na Rua do Russell, na Glória.O teatro é um luxo, fiquei imaginando a ocupação daquele espaço por Gabriel Villela. Marlene Dietrich! Pouco antes da morte de Louis Malle, entrevistei-o por telefone e ele me disse que seu próximo projeto – nunca concretizado – seria a cinebiografia de Marlene, com Uma Thurman. Entrevistei há pouco, um mês, talvez mais, Fatih Akin – por O Bar da Luva Vermelha – e ele me disse que balança entre dois novos filmes e um deles é sobre Marlene, com Diane Kruger. Ela morreu em 6 de maio de 1992, logo na abertura do Festival de Cannes, e o mais incrível é que o evento a homenageava naquele ano, tendo colocado sua imagem no cartaz. Marlene morreu em Paris, aos 91 anos. Vivia reclusa. A peça de Aimar Labaki – direção de William Pereira – começa quando ela recebe a visita de um rapaz, que não a conhece e a quem seduz, por mais que, inicialmente, ele reaja, protestando que não é michê, nem vai fazer sexo com uma velha. Marlene conta sua vida. O início na Alemanha, Josef Von Sternberg, a ida para Hollywood, a rivalidade com Garbo, o feminismo avant la lettre, a luta contra o nazismo, o grande amor por Jean Gabin, um machão de carteirinha que queria que ela se submetesse e Marlene preferiu abandoná-lo. Impossível não pensar na frase de Charles Laughton em Testemunha de Acusação, de Billy Wilder, quando o juiz diz da personagem que ela interpreta – “Remarkable woman”. Assisti, acho que no ano passado, na Videoteca do Quartier Latin (onde mais?), a três filmes que ela fez com seu Pigmaleão, Sternberg. Marrocos, O Expresso de Shangai e Mulher Satânica. Marlene foi uma vamp devoradora de homens antes mesmo que o film noir criasse o conceito da femme fatale. Sylvia Bandeira é quem faz o papel, e foi um dos motivos que me fizeram assistir à peça. Sylvia não fez muita coisa no cinema, mas foram participações marcantes em República dos Assassinos, Bar Esperança – a Cotinha! – e Apolônio Brasil, os dois últimos de Hugo Carvana. Silvia canta em alemão, inglês e francês – sem legendas, a poderosa! – e na cena que evoca a passagem da estrela pelo Brasil, no Golden Room do Copacabana Palace, canta, com sotaque, Luar do Sertão.
Não há, ó gente, ó não
Luar como esse do sertão…
Terá sido uma licença poética ou Marlene cantou mesmo Catulo da Paixão Cearense? Aquilo ficou na minha cabeça e eu saí direto do teatro para a Trattoria, em Copacabana, na Rua Fernando Mendes, 7, onde comi meu prato de sempre – o frango com camarão – e, por acaso, encontrei o Vanderlei, ex-cinegrafista da HBO, amigo de tantos festivais internacionais, com a ex-mulher dele (e eterna amiga), a Beatriz, produtora cultural de Histórias Extraordinárias. Ficamos de conversa. O Brasil do retrocesso, de Bolsonaro, dos ‘filtros’. E também o de Roberto Alvim, que me dá a impressão de se haver suicidado, artisticamente, o que está no seu direito, por mais que o admirasse no Club Noir, mas arrastar a Juliana Galdino, sua mulher, extraordinária atriz? Nãããoooo! Tanta coisa que a gente lamenta na vida. Só Marlene e sua amiga Edith Piaf para cantarem, com convicção, ‘Non, rien de rien, non, je ne regrette rien…’

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