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Silêncio (mas é preciso falar sobre Scorsese)

Luiz Carlos Merten

25 de fevereiro de 2017 | 11h37

Havia visto Até o Último Homem na Argentina, em janeiro, antes que o filme estreasse no Brasil. Hasta el Ultimo Hombre… Quando fui escrever para o Caderno 2 – a ‘ressurreição’ de Mel Gibson – fiz uma pesquisa na rede, acho que para ver o título original. Encontrei uma crítica num desses sites brasileiros, com um título que me chamou a atenção. O filme seria incorreto porque demoniza os japoneses para ressaltar o norte-americano como objetor de consciência. Ai, meu saco… ‘Mel’, afinal, já é antissemita e homofóbico – mas colocou um ator bissexual como protagonista de seu novo filme, curioso, não? -, então vamos enterrar logo. Agora é antinipônico, também. Em Paris, fui ver Silêncio, o novo Martin Scorsese. Masoquismo puro. Há tempos não gosto do cinema de ‘Marty’, ainda mais dos seus projetos obsessivos, aqueles filmes que ele demora décadas para fazer. Gangues de Nova York, sua primeira parceria com Leonardo DiCaprio, era o ó. Silêncio, baseado no romance de Shusaku Endo sobre o martírio dos evangelizadores (cristãos) do Japão, foi outro que Scorsese demorou 26 anos para realizar. Foi em 1990, quando fazia o Van Gogh de Akira Kurosawa em Sonhos, que Marty leu o livro. Ele volta à vertente de Kundun, de Última Tentação de Cristo, que nem são seus piores filmes. Estava vendo Silêncio no MK2 Odéon e pensando comigo – como são bárbaros esses japoneses, martirizando cristãos. Os pobres morrem de tudo o que é jeito – queimados vivos, afogados, decapitados etc. Pensei no garoto que, naquele site, desqualificou o incorreto Mel Gibson. O que vai dizer do Scorsese? Provavelmente, nada. Nesse mundo cínico em que vivemos, existem duas medidas para tudo. A imprensa, à qual pertenço, e o Supremo são as melhores provas disso. O Procurador da República, inquisidor-mór, esse nem se fala. Silêncio… Não vou dizer que me decepcionei com o filme, porque a decepção com Scorsese virou regra para mim. Mas o filme é ruim, sim. Embora Scorsese crie um Judas para a sua nova tentação de Cristo – os personagens de Liam Neeson e Andrew Garfield -, o filme segue a vertente de Touro Indomável, em que Jake La Motta, obcecado pelo ciúme, como o Otelo shakespeariano, era também seu Iago. Aquele Judas é um adereço externo – o Judas de verdade de Andrew Garfield é ele, vendendo sua consciência (e achando que está salvando vidas) para chegar àquele final, que não vou dizer qual é – olha o spoiler -, mas é muito cretino. Mais velha Hollywood para aplacar a má consciência, impossível. Mas confesso que, de todos os filmes recentes de Scorsese, esse talvez seja o que tenho mais problemas. E por um motivo simples – há muitos anos, em Porto Alegre, quando era garoto e ainda havia o cinema Central, na Praça da Alfândega, vi um filme que nem sei se era bom, mas me impressionou muito. Carrego-o comigo. O Cristo de Bronze. O padre, seduzido pela gueixa, denuncia o namorado dela, que esculpiu o Cristo em bronze. A gueixa, que não é religiosa, recusa-se a pisar na efígie porque é obra do seu amado, e profaná-la seria pior que profanar o Cristo, que, afinal, não representa nada para ela. Não tenho muita paciência para fazer pesquisas na rede, vocês sabem, mas me surpreende que, em livros, catálogos e retrospectivas do cinema japonês, nunca encontrei nada sobre esse filme, que me parece sonhado. Existe mesmo? Talvez, pesquisando, vocês o encontrem disponível na rede. Para mim, faltou a gueixa no Silêncio do Scorsese. Pode até ser que, desse jeito, ela só exista no meu imaginário, mas é outro grau de complexidade – que Silêncio não tem. Minha certeza é que esse Scorsese, apesar da suntuosidade cênica, é uma m… Mais uma. Na volta de Paris, o cara na poltrona da frente, no avião, assistia a O Lobo de Wall Street. Via as cenas sem diálogo, sem som. A histeria saltava da telinha. O mundo do capital é depravado como o da religião. As pessoas degradam-se, essa é a verdade de Scorsese. Um autor ‘khouriano’? No ciclo Marcelhal de Walter Hugo, a ascese se dá pela via da degradação. Será…? Pensando bem, ao mostrar esse estado do mundo, Scorsese pode muito bem não estar errado. É o que estamos vendo todo dia. Mas eu me arrependo de haver utilizado o título no post anterior, sobre Cinquenta Tons mais alguma coisa. É o horror, o horror…