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She, ou Todas as Faces do Amor

Luiz Carlos Merten

18 de maio de 2020 | 23h08

Disse ontem que ia interromper o post de Guerra e Paz porque estava muito longo, e embora não estivesse mentindo não fui 100% sincero. Na TV estava passando Um Lugar Chamado Notting Hill e eu queria rever o final da comédia de Roger Michell, de 1999, há 21 anos. Nottinh Hill foi escrita por Richard Curtis e eu queria rever a sequência em que Hugh Grant, passando-se por repórter de uma revista de esportes equestres, consegue entrar na coletiva da top star Anna Scott, com quem teve um affair. A estrela e o livreiro. A linda mulher Julia Roberts. A trilha com She, de Charles Aznavour (e Herbert Kretzmer), regravada por Elvis Costello, que embala toda a sequência. Revi o filme no começo do isolamento provocado pela pandemia – já se vão dois meses – e é muito charmoso, mas aquele final, realmente, é the best. Hugh Grant é perfeito naquele tipo de tímido atrapalhado, tropeçando nas palavras para fazer sua pergunta. A cena é muito bem decupada, e interpretada, e tem aquele plano em que os dois monitores mostram, lado a lado, os rostos de Grant e Julia, ambos luminosos e felizes, como se estivessem se olhando, porque o amor triunfou. Seguem-se o casamento, a première e a gravidez, com o casal naquele banco do parque, tudo ao som do Elvis Costello,
She may be the face I can’t forget
The trace of pleasure or regret
May be my treasure or the price I have to pay
She may be the song that summer sings
Fiquei com a música martelando na minha cabeça. A voz do Aznavour, ecoando. Era capaz de jurar que She, a versão inglesa de Tous les Visages de L’Amour, já havia sido uma das canções na trilha de Frank De Vol para Crime e Paixão/Hustle, o thriller de Robert Aldrich, de 1975, com Burt Reynolds como policial de Los Angeles que investiga a morte de uma atriz pornô. Ele tem um caso com uma prostituta de luxo, e Nicole, seu nome, é ninguém menos do que Catherine Deneuve, naquele período em que tentou, sem muito sucesso, fazer carreira em Hollywood. Não é um grande Aldrich, mas acho que, de todos os diretores com quem a bela da tarde trabalhou, Aldrich foi o que mais se apropriou do fetiche, fazendo da cabeleira loira a principal vestimenta de Nicole. Na minha cabeça, She era a música da personagem de Deneuve, mas fui pesquisar e é outra parceria de Aznavour com Kretzmer – Yesterday When I Was Young, que é a versão de Hier Encore. É curioso como certas músicas marcam.

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