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Shakespeare peruano me provocou exaltação dos sentidos

Luiz Carlos Merten

15 de janeiro de 2019 | 12h19

SANTIAGO – Confieso que vivi, Pablo Neruda. Confesso que nunca vi um Shakespeare mais vivo que o de Chela De Ferrari. Já estava na Mirada, o festival de teatro de Santos? No Porto Alegre em Cena? Senão, espero que os organizadores leiam esse post e tratem de incluir a criação peruana em suas criações desse ano. Existem obras mais ambiciosas e representativas do gênio do bardo. Gabriel Villela considera Hamlet, que pretende montar, uma das três pedras fundamentais do edifício da dramaturgia. Mas, entre as comédias, Much Ado About Nothing possui um encanto todo especial. Os duelos verbais, as frases de humor ferino com que Benedick e Beatriz mascaram sua atração, o amor de Claudio e Hero, e a fragilidade da juventude que cai na armadilha de Don Juan, irmão do príncipe Pedro, para enlamear a honra da garota – o amor está no centro da peça. O que é? O que é? O amor e todos os sentimentos que compõem o vasto espectro da natureza humana – traição, ódio, cobiça. E a amizade. Em 1993, Kenneth Branagh fez a sua versão da peça para o cinema. Além de diretor, fazia o papel de Benedick e o restante do elenco incluías Emma Thompson, então sua mulher (Beatriz), Denzel Washington (Pedro), Keanu Reeves (João), Kate Beckinsale (Hero), Robert Sean Leonard (Cláudio) e Imelda Staunton (Margaret). Em 2012, foi a vez de Joss Whedon filmar a peça, em preto e branco e sua casa, numa adaptação em que os atores, Amy Acker e Alexis Denisof, como o casal principal, vestiam figurino contemporâneo. Adorei o que não deixava de ser experimentalismo, acho até que coloquei o filme entre os meus melhores do ano. E ontem foi a explosão da montagem peruana. O teatro é/pode ser uma coisa maravilhosa. Quando pensei que ia escrever isso? Tenho gostado de muitas coisa que vejo, mas saí ontem do Centro Cultural Matucana num estado de exaltação dos sentidos que beirava a febre. Tomei um táxi e fui ao Pátio Bellavista para jantar. Não voltei ao Tambo, o peruano, mas fui ao restaurante do lado. Sentei-me estrategicamente num lugar que me permitia ver a Lua, e a vi descer no firmamento. Foi mágico. Cheguei no hotel de madrugada, perdi minha hora hoje pela manhã. Chela De Ferrari faz sua montagem só com homens, como no teatro elizabethano. Usa Beatles na sua trilha, e Macarena (na cena do baile). Homens vestidos de mulheres, barbados, sem maquiagem nenhuma, colocam suas roupas diante da plateia e se beijam furiosamente no palco. Nada a ver com viadagem, mas uma discussão sobre gênero das mais pertinentes. E Chela subverte duplamente o final, e mais não conto, na expectativa de que vocês possam ter, em algum festival internacional de teatro do Brasil, o mesmo prazer que tive com as descobertas proporcionadas por esse Shakespeare do Peru. Estou adorando o Santiago a Mil. E hoje tem o Felipe Hirsch, Democracia, em outro Centro Cultural, o GAM, cujo nome homenageia Gabriela Mistral. Aliás, dse táxi e metrô, o festival me tem feito circular por Santiago inteira, conhecendo lugares, teatros e espaços públicos, que me eram desconhecidos todas essas vezes que vim ao Chile.

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