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Sexta-feira 13, o terror da realidade e o da ficção

Luiz Carlos Merten

14 Janeiro 2017 | 12h18

BUENOS AIRES – Ontem pela manhã, fui ao Incaa Gaumont, o cinema do Centro, em Rivadavia, que só passa filmes argentinos. Sexta-feira 13. O verdadeiro terror foi ver como naquela parte da cidade está degradada. Uma cracolândia portenha. Recoleta, Palermo Soho, onde estamos, fazem parte de outro mundo. Bares e restaurantes chiquérrimos, abertos à 1 da manhã, gente nas praças. São Paulo é uma cidade provinciana face ao cosmopolitismo de Buenos Aires. Comento isso todo dia, toda noite. Janto fora, sempre, e tarde. Muitas vezes quero jantar depois de ir ao cinema, à meia-noite. É mais fácil achar um restaurante aberto em Dom Pedrito, no interior do Rio Grande do Sul, que nos Jardins, ou mesmo na Vila Madalena. São Paulo é a legítima metrópole que pára. Mas, enfim, fui ao Incaa para ver El Sacrificio de Nehuen Puyelli, de José Celestino Campusano. Nem sabia da existência desse filme, mas o horário (12 h) me convinha. Uma prisão na Patagônia, dois homens, um deles um índio mapuche. Uma mãe vingativa que quer fazer o homem que abusou de seu filho pagar pelo crime. A homossexualidade como fator cultural. Entre certas tribos da região, era perfeitamente natural, mas não na sociedade cristianizada dos brancos, em que sodomizar o outro é um ato de dominação e poder. Quem manda na cadeia… Tomei um choque vendo o filme. Atores desconhecidos (para mim), diálogos fortes, situações idem. E o curioso é que O Sacrifício de Nehuen Puyelli deflagrou um processo mental que me fez lembrar de Tom Gries, um diretor norte-americano que morreu – fui pesquisar – em 1977. Há 40 anos. Tom Gries fez dois dois grandes filmes – o western Will Penny/E o Bravo Ficou Só, com Charlton Heston, e o drama carcerário O Sistema. Alan Alda mata um homem em legítima defesa e vai preso. Tenta se manter longe da violência dos demais presos, mas não consegue. Vic Morrow é cara que, de dentro, controla toda a prisão. Lembro-me de uma fala dizendo que tem tudo o quer ali dentro, menos uma mulher para satisfazer suas necessidades. Isso significa transformar presos jovens nas suas mulheres. O Sistema é de 1972. Deve ter passado no Brasil em 73 ou 74. Os filmes não chegavam tão rápido naquela época. Não era nenhuma criança – já ia bater nos 30 -, mas a violência do filme, e o linguajar, me marcaram muito. Vic Morrow morreu num acidente de filmagem, despedaçado pela hélice de um helicóptero, no set de No Limite da Realidade,em 1982. Era pai de Jennifer Jason Leigh. Tentei pesquisar, porque me lembro que ele fez uma adaptação de Jean Genet, um filme cultuado. Veio de Vic Morrow? Do próprio Tom Gries? Não sei se O Sistema é tão impregnado de Genet quanto ficou gravado no meu imaginário, mas me veio tudo isso a propósito de O Sacrifício de Nehuen Puyelli. Fiquei em choque com o filme de Campusano.