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Setenta anos esta noite!

Luiz Carlos Merten

12 de setembro de 2015 | 09h47

Meus pais morreram muito cedo. Meu pai com menos de 40 anos, minha mãe, aos 50, depois de ficar paralisada e privada de fala por alguns anos. Tinha fantasias de que não viveria muito, mas completo hoje 70 anos. Como sou o caçula de quatro irmãos e estamos todos vivos, as irmãs do meio, Marlene e Marli, estão com 78 e 75 anos, e o irmão mais velho, o Ildo, com 82 (ou 83). Setenta anos esta noite! Vou comemorar com amigos, uma grande festa com DJ e escola de samba. Mas ninguém chega tão longe sem suas dores. Amigos queridos foram-se, e eu gostaria que estivessem comigo hoje. Estarão, no pensamento. Sérgio Moita, Tuio Becker, Romeu Grimaldi. E outros… Dessas sete décadas, há pelo menos cinco (quase: desde 1966) o cinema tem sido minha janela para o mundo, meu escudo e meu refúgio. Fiquei obcecado nos últimos dias por Louis Malle. Lembrei-me muito de 30 Anos Esta Noite, que ele adaptou do romance de Drieu de la Rochelle. Alain Leroy/Maurice Ronet, naquilo que em Hollywood se chama ‘a lifetime performance’, está tendo alta de um tratamento de recuperação do alcoolismo. O médico que o assiste insiste que tenha uma atitude positiva perante a vida, mas Alain só vê amargura e desespero. Num derradeiro esforço, ele deixa Versalhes, onde fica a clínica e ruma para Paris, ao encontro de amigos. Paris à noite lhe oferece a paisagem das ruinas humanas. Os amigos fracassaram – socialmente, intelectualmente, politicamente. Alain não vê outra saída senão o suicídio. Lembro-me do horror que nos produziu o filme de Malle, a nós – Jefferson Barros, Enéas de Souza, José Onofre – que amávamos os tempos fortes do western e talvez, no fundo, quiséssemos ser os mocinhos de nossas fantasias. O próprio Malle, que vinha de uma família muito rica e era rotulado ‘de direita’, buscou na vida e na arte alternativas para a negatividade de Alain Leroy. Experimentou a revolução (Viva Maria!, com Jeanne Moreau e Brigitte Bardot) e voltou ao desespero contido, mas Georges Randal/Jean-Paul Belmondo não se mata. Transforma o ato de roubar numa solitária transgressão contra o sistema, tão isolado e sombrio, talvez, quanto o Umberto D de Vittorio De Sica, que não tem nem a coragem desses golpes de audácia. Sempre gostei muito de O Ladrão Aventureiro, o ‘meu’ Malle. As aventuras sombrias de um ladrão galante da Belle Époque. Ecos de Maurice Leblanc e seu Arsène Lupin. Li com muito cuidado e interesse sobre a questão moral do suicídio em Albert Camus, mas nunca, nem nos piores momentos de minha vida, quando o mundo parecia desabar sobre minha cabeça, considerei a solução de Alain Leroy. A vida foi sempre muito forte para mim. E sempre havia o cinema. Sei de gente que considera Cantando na Chuva o maior energético do cinema. Amo o musical de Stanley Donen e Gene Kelly, não tanto quanto outros de Vincente Minnelli, talvez – Cantando na Chuva? -, mas o meu refúgio nunca foi o escapismo, mas os filmes que me devolviam à realidade. Rocco, Rocco, Rocco. Rastros de Ódio, M, Os Brutos Também Amam. Luca que vai por aquela estrada e, depois de ouvir e entender o ponto de vista do outro, do irmão – Ciro -, o chama para voltar à casa.’T’aspettiamo’. Ethan Edwards que abre os braços para acolher Debbie, ele que, durante tanto tempo, procurou a garota para matar. Peter Lorre, o vampiro de Duisseldorf, naquele derradeiro grito de socorro, e nunca ninguém vai socorrê-lo. Joey, que chama Shane e ele se afasta e o garoto ingressa na vida adulta com aquele sentimento de perda, a sombra que passa pelo seu rosto. A vida – diga lá o que é a vida, meu irmão? Fui procurar ontem não sei que informação sobre Pequeno Dicionário Amoroso 2 – para a entrevista com Andrea Beltrão que sai amanhã no Caderno 2 – e encontrei uma crítica irada. Para que voltar àqueles personagens? Que filme inútil, o da Sandra Werneck! O cara que escreveu isso deve ser um crítico melhor e mais acurado que eu, porque adorei. Conversei muito com Andrea sobre a personagem de Glória Pires, a ex-mulher de Gabriel/Daniel Dantas. Ela é vidente, sabe o ex-marido que tem, conhece seus defeitos melhor que ninguém, mas o apóia, como amigo. Aquilo é tão bonito, e tão triste, assinalou a Andrea, com sua imensa sensibilidade. E, no limite, numa era de crise de confiança como a que vivemos, o que resta é isso. A amizade, o afeto, o amor. Por isso quero festa. Setenta anos esta noite!