As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Sérgio Silva

Luiz Carlos Merten

15 de agosto de 2012 | 19h29

Meus amigos, vocês devem estar se perguntando – onde anda este Merten, que não dá notícia? Desde o domingo, ando querendo postar, primeiro sobre o vencedor do Festival Judaico, ‘ Crianças Prodígio’, de Marcus Rosenmüller. Mas segunda e terça entrei numa roda viva com as junketts de ‘360’, de Fernando Meirelles, e ‘Corações Sujos’, de Vicente Amorim. Nesse corre-corre de filmes e entrevistas, ainda tive de arranjar tempo para ver o novo ‘Total Recall’, para um especial sobre o escritor Philip K. Dick, e a todas essas é preciso tocar a vida. Comer, dormir, ler as minhas Agathas Christies (para relaxar), comer de novo (tenho ido num indiano ótimo na Rua dos Pinheiros, o Goshala, he-he). Pensava hoje voltar a um ritmo mais light, embora tivesse um almoço com a delegação do Festival Varilux do Cinema Francês, ao qual terminei faltando. Havia feito minha capa das entrevistas com Vicente Amorim e Fernando Morais (para amanhã) quando ela caiu pela morte de Altamiro Carrilho. Quase na mesma hora chegou a notícia de outra morte que me atingiu ainda mais, a do cineasta gaúcho Sérgio Silva. Nem me lembro mais se conheci o Sérgio por meio de Tuio Becker, com quem ele realizou seu longa em super-8 ‘Heimweh/Nostalgia’, ou se na verdade foi por meio de Antônio Cândido, o Tunuca, que havia sido meu colega no Júlio de Castilhos. Foi pelo Tunuca – Sérgio era vizinho dele. Tuio e eu fazíamos arquitetura, e amávamos o cinema. Sérgio fez o curso de letras, virou professor (por mais de 30 anos!) de disciplinas teóricas de dramaturgia no Departamento de Arte Dramática da UFRGS, e virou cineasta. Dirigiu ‘Anahy de las Misiones’, que eu defendi como louco na estreia do filme em São Paulo e, naquela fase da Retomada, minha solidariedade foi considerada coisa de gaúcho. Não era. O filme havia ganhado aquele mundaréu de prêmios em Brasília, mas era cinema de bombacha e, depois, tinha uma Pietà gay. Era demais para muita gente – azar de quem. Até hoje considero o final de ‘Anahy’, a família seguindo em frente e se desenhando diante dela o abismo do Taimbezinho, uma das grandes cenas do cinema brasileiro. Lembro-me da visita ao set de ‘Festa de São João’, quando Sérgio transpôs para uma estância no interior do Rio Grande a ‘Senhorita Júlia’ de Strindberg. Era homem de cultura, capaz de teorizar sobre literatura, teatro e cinema, e era mordaz, como Tuio. Seus comentários não eram apenas ferinos, o que o tornaria, talvez, maldoso. Eram pertinentes. Confesso que hoje baqueei. Sabia que Sérgio estava doente, com câncer, mas não estava informado da gravidade de seu estado. Tínhamos a mesma idade, 66 anos. Tenho enterrado muita gente, muitos amigos. Sérgio me chamava, e não sei como isso começou, de ‘Pequeno’. Nunca percebi maldade no apelido, mas mesmo que tivesse, ele podia. Sérgio Silva fez 21 filmes em diferentes formatos e bitolas. Com seus longas, foi premiado em Brasília e Gramado. Hoje, querendo conferir uma informação, recorri à terceira edição, revista e aumentada, da Enciclopédia do Cinema Brasileiro, que estava sobre minha mesa. Não há uma linha sobre Sérgio Silva como não há sobre Pedro Camargo, que também procurei outro dia, porque um filme dele passava na TV. Folheei ao azar, talvez já irritado, e encontrei nomes perfeitamente dispensáveis (para mim – só posso falar em meu nome). Talvez Sérgio Silva não fosse cineasta ‘brasileiro’. Era ‘gaúcho’. Muitos amigos meus – de São Paulo – brincam, comigo, sobre a República do Rio Grande. A Mostra Gaúcha do Festival de Gramado homenageou-o na segunda-feira. Roger Lerina, de ‘Zero Hora’, recebeu o prêmio por ele. Disse que Sérgio possuía um conhecimento enciclopédico, que transmitia sem soberba. ‘Gostava de dialogar e de dividir.’ Acho que isso daria um belo epitáfio para Sérgio Silva. Vai em paz, amigo.