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Senhora das entonações

Luiz Carlos Merten

12 Dezembro 2016 | 12h48

Cá estou de volta a São Paulo. Tive uma programação bem extensa no Rio – visitas a sets (Pluft o Fantasminha e Como É Cruel Viver Assim), entrevista com Paulo Gustavo no teatro em que apresenta a nova peça, Online. E muito teatro. Dib Carneiro foi ao meu encontro, Gabriel Villela veio de Natal. Cláudio Fontana está com o Godot de Elias Andreato no Sesc Copacabana. Fomos em quarteto – Dib, Gabriel, Kika Freire e eu – ver no sábado a Antígona de Andréa Beltrão e, no domingo, em terio – Dib, Gabriel e eu – ver o Céus, de Wajdi Mouawad, direção de Aderbal Freire Filho. Gostei muito (muito!) de Antígona e médio – so-so – de Céus. Vamos por partes. Imagino que alguém poderá objetar por que nós, da APCA – o colegiado, cada vez mais reduzido, de cinema – não demos o prêmio de melhor atriz do ano para Sonia Braga, por Aquarius. Dois votantes o fizeram por procuração – eram votos fechados, sem possibilidade de mudança. Os demais, mesmo sendo maioria, ‘dialogamos’ com vistas a manter conceitos e princípios e ampliar o prêmio sem cair no distributivismo. Todo esse prólogo, antes que me joguem pedra, é para chegar ao ponto. Até agora não me conformei que o colegiado de teatro da APCA não tenha premiado Juliana Galdino como melhor atriz. Não tenho nada contra Denise Weinberg e até a admiro bastante, mas o monólogo O Testamento de Maria nem lhe dava chance porque o diretor, ‘Ron’ Daniels, a colocou numa briga com o acompanhamento musical que a mim enervou. E Juliana, no Leite Derramado, que Roberto Alvim adaptou (transcriou?) de Chico Buarque, é the best. Acompanho esses dois na Cia. Club Noir, todos aqueles clássicos gregos.Chego aonde queria. Minhas três montagens preferidas do ano foram o Peer Gynt de Gabriel Villela, Leite Derramado, de Roberto Alvim e Juliana Galdino, e a Antígona de Amir Haddad e Andreia, que vi no fim de semana, no Rio. É até insulto dizer que se trata de um monólogo, porque Andréa, senhora das entonações, como a definiu Gabriel Villela, enche o palco de personagens que cria com a força de sua presença cênica e, principalmente, a voz. No final, corri para perguntar-lhe quando traz esse regalo a São Paulo. Talvez nunca. Montar no Rio, no Poeirinha, já foi um sufoco. Sem patrocínio, sem divulgação – ‘Só se alugar um caminhão e montar numa praça’, me disse Andréa. Pois que seja. Socorro, Danilo Santos de Miranda. Antígona, por favor. O texto de Sófocles reinventado por Andréa e seu diretor/autor. O espetáculo é só ossatura – só? -, a essência da tragédia transformada numa aula magna sobre mitologia grega. Homens e mitos. Esses deuses que amam, matam, trepam. Nada desse monoteísmo transformado em xiismo que está fazendo do mundo um lugar muito chato. Os Felicianos querem nos impor uma coisa. Os puristas de todas as latitudes, em nome do combate à corrupção, querem nos colocar em camisas de força. São Torquemadas. Os deuses gregos, no plural, nos lançam em outra via, em busca de um entendimento mais amplo do humano. Gostei demais de Antígona, da Andréa e do despojamento de seu diretor. Antígona está para o teatro clássico como Tio Vânia em Nova York, o Chekhov de Louis Malle, para o cinema. Gostaria de emendar com o Céus, mas vou ter de escrever depois. Já estou atrasado para minha reunião de pauta (às 13 horas). Antígona, por favor!