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Sementes de Violência

Luiz Carlos Merten

18 de março de 2014 | 10h07

O que Sidney Poitier e futuros diretores como Vic Morrow e Paul Mazursky tinham (têm) em comum? Foram atores de Richard Brooks em Sementes da Violências, que a Versátil está resgatando em DVD. O clássico de 1955 foi a primeiro filme A de Hollywood a incorporar o rock’n’roll em sua trilha, e isso porque Brooks e o produtor Pandro Berman perceberam que, para retratar a nova juventude rebelde dos EUA – os jovens ‘trasnsviados’ -, uma trilha sinfônica não seria adequada. A garotada estava se identificando com os trejeitos desencadeados por um outro ritmo. So, let’s rock. Richard Brooks sempre foi um dos meus diretores de cabeceira. Ex-jornalista, fez filmes sociais marcados pela urgência no começo de sua carreira, mas o Brooks que eu amo foi o que adaptou Tennessee Williams, Dostoievski, Joseph Conrad, Truman Capote e fez verdadeiras obras-primas sobre personagens atormentados em busca de redenção (e segunda chance). Com o tema do eterno retorno (ao lar), o da segunda chance virou uma espécie de emblema de Hollywood, até ser banalizado pela produção9 massiva, mas isso não tira o mérito de Brooks. O Paul Newman de Gata em Teto de Zinco Quente e Doce Pássaro da Juventude, o Peter O’Toole de Lord Jim, os pistoleiros de Os Profissionais fazem parte das minhas grandes lembranças no escurinho do cinema. Rubens Ewalds Filho, que entrevistou Jean Simmons velhinha, disse que ela se emocionou quando ele lhe lembrou o marido e ela falou com imenso carinho do grande Richard. Glenn Ford faz o professor idealista que vai lecionar numa escola barra-pesada. Os estudantes o confrontam. Ele resolve investir num garoto que percebe que tem potencial, até como liderança (Sidney Potier). Vic Morrow saca do canivete na sala de aula. No embate físico, Glenn Ford leva a melhor e ganha o respeito da turma. Sidney Poitier iniciou em Blackboard Jungle, título original, a carreira que todo mundo sabe. Angelina Jolie, que o escortou no último Oscar, disse que ele era ‘uma lenda’. O baderneiro de Sementes da Violência virou o professor bem-intencionado de Ao Mestre com Carinho, de James Clavell, em 1968, um ano emblemático. Paul Mazursky virou um diretor muito interessante, que fez a crônica dos costumes ao longo de uma série de filmes que retratam a classe média e alta da ‘América’ nos anos 1970 e 80. Vic Morrow sempre teve uma vocação mais independente – ‘marginal’? Morreu decepado pela hélice de um helicóptero, num acidente de filmagem. Em Sementes, ele incorpora os maneirismos de Marlon Brando, O Selvagem, para compor seu personagem. John Garfield e Brando precederam James Dean. Pode ser que não fosse um defeito do ator. E se Brooks estivesse querendo dizer que a vida imita a arte? Que o cinema, com o comportamento de muitos personagens que se tornam carismáticos, molda o imaginário do público? Não é o menor dos interesses de Sementes da Violência, revisto hoje.

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