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Semana!

Luiz Carlos Merten

22 de novembro de 2014 | 10h00

RIO – Deixem-me dar um pouco de conta da Semana dos Realizadores. São dois eventos que amo, a Mostra de Tiradentes e a Semana. Possuem o mesmo foco, privilegiam o mesmo tipo de cinema que não é aquele que dita as normas no mercado. Há muita gente jovem na Semana – como em Tiradentes. Me comove o entusiasmo, mesmo que não comungue sempre das mesmas opiniões. Havia chegado quinta à tarde no Rio. Soube logo da morte de Mike Nichols, mas a definição do espaço demorou um pouco. Fui àquela que seria a primeira grande atividade da Semana após sua abertura – a master class de Kleber Mendonça Filho, que está sendo homenageado com uma retrospectiva. Não poderia ficar muito tempo, porque tinha de ir para a sucursal, mas o Kleber começou a exibir trechos de filmes e a comentá-los de forma a estabelecer seu discurso sobre o cinema. Muito Polanski – o curta de graduação de Lodz A Murderer, Repulsa ao Sexo, O Bebê de Rosemary etc -, algum Claude Lelouch (o curta C’´´Etait Unm Rendez-Vous, que não conhecia), um Elia Suleiman (Intervenção Divina), um programa de cultura na TV inglesa, o Video Show. Como os trechos eram projetados em vídeo no computador, a cada trecho voltava o índice e eu via, lá embaixo, Vá e Veja. O tempo passava, eu tinha de ir embora, o Kleber falando e nada do filme do russo Elem Klimov. Mas eu esperei. Não sei se teria selecionado aquelas imagens, mas foi bom rever, mesmo que parcialmente, Vá e Veja. A experiência da guerra foi crucial para os russos, e para seu cinema. Um filme como o Fausto de Alexandr Sokurov não me diz nada, sorry, mas Alexandra, do mesmo diretor, mexe muito comigo. A Semana começou para valer com imagens de outra guerra, a que se trava nas quebradas. Revi, e amando, A Vizinhança do Tigre, de Affonso Uchoa, que ganhou Tiradentes. Vieram, para o debate após a projeção, o diretor e seus garotos. Mais até do que Branco Sai, Preto Fica, de Adirley Queiroz, que estava em Tiradentes e venceu Brasília, o Tigre deveria estar na mostra Cinema da Quebrada, que ocorre em São Paulo, na Galeria Olido. Ontem à noite, a mostra competitiva da Semana me reservou duas fortes emoções. O curta Retrato n. 1 Povo Acordado e Suas 1000 Bandeiras, de Edu Ioschpe, me produziu um choque e foi o complemento perfeito para Com os Punhos Cerrados, que renova a parceria Pretti/Parente. O curta tem um só plano, fechado no rosto de uma mulher que enfrenta a hostilidade de black blocs durante uma daquelas manifestações de junho, no ano passado. Ela porta uma bandeira, eles querem queimá-la. Ela resiste. Enfrenta a multidão. O coro de vozes fora de quadro é hostil. É um momento de tensão (quase) insuportável, mais do que em qualquer suspense de Alfred Hitchcock. Kleber Mendonça falou muita de tensão na sua master class. A importância e até necessidade da tensão, como expressão do conflito. E aí veio o longa (em termos, 74 min) da Alumbramento. Luiz e Ricardo Pretti, Pedro Diógenes. Atores, diretores, roteiristas. O filme, que começou a ser gestado em 2010, procurava resgatar palavras em desuso – anarquismo, anarquismo, anarquismo. Um filme atropelado pela história, chega à Semana um ano após o próprio junho de 2013, uma data que se arrisca a virar mítica (apesar de). Luiz, Ricardo e Pedro bradam palavras de ordem anarquistas. Cantam Bella Ciao. Usam uma rádio clandestina e panfletos para combater o sistema. Uma pregação no deserto  – Ricardo, ao apresentar o filme, disse estar-se sentindo num oásis, já que o mundo, hoje, e para o tipo de cinema que ele quer fazer, é um deserto. Mais do que anarquista, achei o filme romântico, o mais interessante – melhor – da Alumbramento desde Ythaca. Os garotos sempre foram muito centrados na transgressão do universo masculino. Criam sua primeira personagem feminina para valer. Ela entra no filme para destruir, mas chora. E cria, recria, reproduz. Vira mãe no final. Achei lindo. Valeu a pena estar ali, no meio daquela plateia. Encontrei Eryk Rocha com Paula Gaitán, que tem um filme na competição, Noite. Passa na segunda à noite. Vou perder. Tenho de voltar para a abertura de uma das mostras italianas em São Paulo, a da Barilla. Claro que não é uma sinopse, mas gostei do que o catálogo da Semana diz sobre Noite. Um poema – ‘Porque a noite pertence aos amantes/Porque a noite pertence à luxúria/Porque a noite pertence a nós.’ Vocês, que eventualmente me leem, e ficam, vejam por mim.