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Semana! E o crítico de cinema voltou ao teatro

Luiz Carlos Merten

25 Novembro 2018 | 22h29

RIO – Volto amanhã para São Paulo, para um dia que promete ser cheio. Vou perder a cabine de El Pepe, pela manhã, e também a de Beijo no Asfalto, que gostaria de ver mais uma vez (a terceira). À tarde, entrevisto Murilo Benício e Débora Fallabela, e sempre seria bom ter o filme fresco na cabeça. Aproveitei a visita ao set de Noites de Alface para ficar no Rio. queria prestigiar a Semana, ex-Realizadores. Revi Temporada e assisti hoje à master class de André Novais Oliveira, recém chegado do Festival de Nantes, onde foi mostrar seu filme. Gostei de rever Temporada. Pode parecer um pensamento Polyanna, mas gosto de dar aos filmes nova chance – de eu gostar. Na verdade, gosto de me dar nova chance. A master class ocorreu no Net Botafogo – a Semana está ocorrendo também num extenso circuito do Sesc, espalhado pelo Rio, mas são autônomos, o Sesc paulista e o carioca, e assim, lamentavelmente, a Semana não está indo para São Paulo. A master class de André serviu para rever trabalhos anteriores dele, e inclusive repassar a experiência da produtora Filmes de Plástico, que o André criou em Contagem, Minas, com os amigos Gabriel e Maurílio Martins, e Thiago Macedo Correia. Cada vez mais a história dos filmes é a da sua produção e distribuição. Queria ter ficado até o fim da apresentação do André, mas tive de correr ao Teatro Poeira para assistir a Cérebro Coração, dramaturgia e interpretação de Mariana Lima, que havia perdido em São Paulo. Peça-aula ou conferência-performática, o espetáculo mexeu comigo e mostrou como a linguagem do teatro também pode se transformar, reinventar, refundar. Estou me perguntando o que vi? Teatro, aula. Saúde, cultura. Cérebro, coração. O ministro nomeado da Cultura já anunciou que vai acabar com a escola partidária. Diz que escola não é para fazer política, mas o que ele está fazendo, ao defender família e moral? Nada de educação sexual – só a biologia. Carlos Vereza vai ficar contente. Estava tão preocupado com a erotização das crianças. Não sabia o que ia ver, ao assistir a Cérebro Coração. Saí do teatro com mais perguntas do que quando entrei. Mas gostei de ter visto. É um caminho, uma possibilidade. Mariana começa na pele de uma cientista que investiga, ou disseca para a gente, o funcionamento do cérebro. Discute a indústria farmacêutica, as doenças psíquicas (com base em experiências pessoais). Ao propor que a plateia olhe para ‘dentro’, o que está em discussão é o estado do mundo. Citando autores como Marcel Proust, Bergson e Leonilson, Mariana, que contou com a colaboração dramatúrgica de Ricardo Linhares e Enrique Diaz – que também são os diretores creditados -, em momento algum se refere a Henri Laborit, mas foi em que mais pensei. No programa, Mariana conta que, antes da estreia, fez apresentações na rede estadual de ensino. Seria interessante mostrar o espetáculo, exibir o filme de Alain Resnais, Meu Tio da América – inspirado nas teorias de Laborit como cirurgião e estudioso do comportamento animal (e humano) -, e discutir tudo isso. Laborit seria uma contribuição importante, mas imagino que ele, como a escola partidária, não interesse ao novo governo (e não que Cérebro Coração tenha qualquer comprometimento com ele. Imaginem – tem até foto do Lula.) Comportamento animal… No Brasil, na ‘América’, as pessoas agem como animais invocando Deus. Curioso paradoxo.