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Semana (4)/Novos olhares, e a importância de (re)aprender

Luiz Carlos Merten

20 de novembro de 2017 | 11h07

Já estou de volta a São Paulo. Deveria ter vindo num voo cedo, mas o anterior foi cancelado por conta do mau tempo – chuva -, os passageiros foram relocados e a consequência foi que vim num voo posterior. Houve turbulência – muita -, mas cheguei. Ontem à noite, quando se desenrolava o debate sobre Café com Canela, o Dani, coordenador de programação da Semana, sabendo que eu não ficaria até o fim do evento, me perguntou se haviam valido a pena meus quatro dias, de quinta a domingo. Com certeza. Adoro a Semana e acho que justamente por ser pequena, feita na garra, com poucos recursos, a Semana pode-se dar ao luxo de errar. Os debates deste ano, especialmente o de sábado, a que assisti em parte – saí antes do fim -, geraram tensões. A tal Igualdade é Branca – Cinema, Raça e Poder não devia ser, mas foi assimilada como ‘supremacia’ branca, e isso gerou mal-entendidos, como a exigência de um pedido de desculpas que quem fez foi a organização. Neste 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, não tem nem cabimento dizer que as sensibilidades estão à flor da pele, talvez excessivamente, mas faz sentido (a hipersensibilidade, digo). A escravidão foi uma mancha, como a Inquisição e o Holocausto, mas com a qual temos de viver. A questão é que sinto que estamos pisando em ovos. Palavras e gestos nunca foram tão metaforizados, e eu sinto que tenho de reaprender todo dia. Um pequeno exemplo. Gosto muito de um curta documentário que vi em Brasília, no ano passado, e revi nem m,e lembro se no Recife ou em Gramado – não, foi Gramado. Cabelo bom. O filme é sobre o cabelo como força de compreensão e afirmação da identidade de negros e negras. O alisamento como padrão cultural foi uma regra vigente durante muito tempo e havias a marchinha célebre – ‘Negra do cabelo duro/qual é o pente que te penteia?’ Anotei, e achei forte, no filme de Glenda Nicário e Ary Rosa, a cena em que a negra que perdeu o filho e virou reclusa, tentas pentear o cabelo desmazelado e desiste, jogando longe longe o pente que a penteia. Suas tentativas produzem sons, que eu via de um jeito, mas fiquei pasmo – a palavra talvez seja demasiado forte -, quando a mediadora deu àquele som uma dimensão que não tinha para mim – nem no Cabelo Bom, o filme – como uma ‘libertação’. Enfim, vamos assumir nosso cabelo e se for duro, como na música, foda-se. É por isso que digo que estou reaprendendo, e é por isso que gosto da Semana, porque essa troca com diretores, imediatamente após a projeção, me acrescenta muito. Claro que fez diferença que a mediadora do debate tenha sido Sabrina Fidalgo, diretora (negra) do curta Rainha. Havia, da parte dela, uma genuína emoção/interação – com temas e autoras – que produziu empatia, e só fez o debate crescer. O segundo programa de ontem à noite, contemplou o curta Travessia, de Safira Moreira, sobre o apagamento da memória negra, e o Café com Canela, que possui um encanto todo especial e que justamente dialoga com Travessia porque vai contra esse apagamento e recupera alguma coisa – histórias, afetos? Caféw com Canela venceu o prêmio do público em Brasília, o Prêmio Petrobrás que injeta dinheiro – R$ 200 mil – no lançamento. Para mim, esse ‘recuperar’ tem algo de filmes norte-americanos como Tomates Verdes Fritos e Histórias Cruzadas, que, cada um no seu tempo, tiveram esse efeito (quase) terapêutico. A codiretora admite as limitações de um primeiro longa, mas o público embarcou, e não só em Brasília. O aplauso para Café com Canela foi caloroso, ontem à noite. Creio que esses dois filmes, e o debate de sábado, estarão na pauta de outro debate que ocorre hoje à tarde, no Centro Cultural Olho da Rua, e que vou perder, mas vocês poderão ver, em tempo real, no Face da Semana. Quem me manda não ter? O títulko é Pereiferia, Negritude e Experimentação no Cinema do Século 21. Os novos agentes e territórios da produção audiovisual, que subvertem a lógica da negritude e da periferia até aqui estabelecida como comum (natural?). Sugiro que acompanhem, e eu vou tentar recuperar depois.