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Semana 2/Sólon, ou Solôn

Luiz Carlos Merten

26 de novembro de 2016 | 10h22

RIO – Revi ontem, na segunda sessão da noite, na mostra competitiva, Solon. Já conhecia o curta de Clarissa Campolina. O catálogo do festival diz que o filme dialoga com as artes visuais, a performance e a ficção científica. A diretora, no debate, hesitou entre chamar seu filme de Sólon ou Solôn, mas disse que a raiz da palavra, de qualquer maneira, é solidão. Clarissa reescreve a Bíblia. E Deus criou a mulher? Não, ela nasce dessa criatura misteriosa, meio monstro, meio alien, que habita o espaço cênico. Acho a ideia, em si, um tanto discutível, mas, como exercício de puro cinema, se já me havia impressionado com Solon, a sensação foi agora mais nítida. É a mais intensa experiência visual que tive no cinema brasileiro do ano, incluídos Aquarius e Boi Neon, que vão (já estão) na minha lista dos dez mais. A questão é – o mercado. Em que nicho colocar um filme raro como o de Clarissa. Solon passou duplo com Heaven, de Luiz Roque, que é parceiro de Clarissa (seu diretor de arte). Formaram um programa intrigante e intrigante. Heaven também é futurista, sobre um vírus que se transmite pela saliva e atinge, predominantemente, a população transgênero. Não creio que, no limite, a experiência seja tão forte, mas Heaven pode ser visto em looping, sem os créditos, na Bienal de São Paulo. Embora o cinema brasileiro não tenha tradição na ficção científica, é interessante assinalar o muito que, nos dois filmes, Luiz Roque consegue com, imagino, poucos recursos. Seu universo é colorido, mas as máquinas que caçam, transgêneros me lembraram o cérebro de Alphaville, de Jean-Luc Godard, e só ontem, vendo o filme brasileiro, me caiu a ficha de que o olho de Hal-9000, que tudo vê, pode ser uma cria godardiana. Prosseguindo, confesso que me aborreci um pouco com o longa, Muito Romântico, de Melissa Dullius e Gustavo Jahn. Os dois também atuam. Atravessam o Atlântico, para recomeçar a vida na Alemanha. Tudo muito elaborado, longas conceituações em alemão, mas engraçado como, à tarde, entrevistando Laurent Desbois, autor do livro A Odisseia do Cinema Brasileiro – lançado no dia anterior, numa livraria do Leblon -, havia comentado sobre meu desconforto com o clássico Limite, de Mario Peixoto, com seu experimentalismo formal à europeia, descolado da realidade brasileira. Isso não impediu a Abraccine de escolher Limite como o melhor filme brasileiro de todos os tempos, um equívoco monumental que me diz que o mais sábio é manter-se à margem (distante?) da associação.Mas, enfim, Muito Romântico é bonito, o público aplaudiu calorosamente, mas eu fora.