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Semana! (2)

Luiz Carlos Merten

24 de novembro de 2014 | 09h38

RIO – Deveria estar voltando para São Paulo, mas o aeroporto daqui está fechado. Retornei à sucursal, porque daqui a pouco tenho o programas de rádio e sempre é bom acrescentar algum post. Vi ontem um média deslumbrante na Semana dos Realizadores, e o interessante é que Nada É, comissionado pela Bienal de São Paulo, está no Ibirapuera, num cinema que o evento e o diretor Yuri Firmeza construíram para abrigar a projeção. Não creio, sinceramente, que um cinema improvisado tenha as condições audiovisuais – tela grande, som digital – para exibir Nada É como o vi ontem. No debate que se seguiu à projeção, o diretor começou explicando o título. Em Alcântara, Maranhão, nada é – tudo já foi ou será. No século 19, a elite local construiu palacetes à espera do imperador Pedro II, que, como Godot, nunca chegou. Os palácios viraram ruínas. Em Alcântara, há uma base de lançamento de foguetes, que aponta para o futuro. Todo ano, e durante 15 dias, a cidade abriga uma festa – a coroação do imperador menino, uma forma de compensação para a espera nunca concretizada no passado. Yuri trabalha o tempo segundo a religião (a festa do Divino) e a ciência (a investigação do espaço). O tempo como eternidade, como transcendência. Alcântara foi cenário de quilombos e tem hoje uma expressiva representação de quilombolas. Yuri fez o que Arthur Omar quis fazer no passado – a antropologia da face gloriosa. A busca e construção do êxtase pela imagem. Fiquei numa empolgação com o filme de Yuri Firmeza que tive problemas para baixar à Terra, depois. O programa seguinte, duplo com o filme dele, veio da Alumbramento. Os filmes de Guto Parente são particulares dentro do coletivo. A Misteriosa Morte de Pérola é, como definiu o diretor na apresentação, um filme de casal. Guto e a mulher, Ticiana Augusto Lima, foram fazer um mestrado na França. Alugaram um apartamento e foram ‘possuídos’ pelo lugar. O apê possuía um clima – duas pessoas teriam morrido nele – que começou a agir na dupla. Pararam com o mestrado e fizeram um filme. Fizeram tudo. Construíram duplos para acumular funções. O filme divide-se em duas partes. Ela – e ele. Um filme de gênero, uma investigação de terror. Entre as referências, David Lynch, Estrada Perdida, que, confesso, como quase todo Lynch, não me diz muita coisa. Dele, só gosto de Veludo Azul e Laura Palmer/Twin Peaks. Outra referência me diz muito mais – Les Yeux sans Visage, Olhos sem Rosto, de Georges Franju, que já inspirou Pedro Almodóvar, A Pele Que Habito. E Guto e Ticiana assumem sem pudor a sublime cafonice de Dario Argento, com todas aquelas máscaras e efeitos sonoros. Achei uma loucura. A forma como o projeto nasceu, como o filme foi sendo feito, obsessivamente, por marido e mulher. A Morte de Pérola precisa de uma vida fora do oásis que a Semana representa no desértico panorama do cinema brasileiro atual. Não tenho nada contra o cinema de mercado – e já anuncio que vou defender Irmã Dulce com paixão -, mas a Semana, Tiradentes, Nada É e A Vizinhança do Tigre me falam de uma maneira muito especial. Guto me disse que não tem distribuidor. Claro – o filme é tão pequeno, tão artesanal. É hora da guerreira Sílvia Cruz entrar em cena com a sua Vitrine, mas Adhemar Oliveira e Jean Thomas Bernardini, que também são parceiros do cinema brasileiro autoral, bem poderiam se movimentar também.