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Semana (1)/Duas noites muito intensas

Luiz Carlos Merten

18 de novembro de 2017 | 01h15

RIO – Cá estou, desde ontem. Não consegui postar antes porque não estava conseguindo me conectar no hotel. Em sua 9ª edição, a Semana dos Realizadores virou simplesmente Semana – Festival de Cinema. Confesso que tenho um carinho especial pela Semana e até lamento que, pela escassez de recursos, ela não se realize também em São Paulo. Com títulos inéditos e outros pescados na Mostra Aurora e no Festival de Brasília, a ideia é abrir outra janela para o cinema autoral, independente, de invenção. A Semana abriu-se ontem com um programa dedicado aos Irmãos Carvalho, que não conhecia. Eles foram premiados em Brasília por Chico, e o evento exibiu também outro curta dos gêmeos – Boa Noite, Charles. Dois filmes bem diversos – uma animação de terror que agrega making of para refletir sobre as dificuldades de produção de quem faz cinema na periferia, na cara e na coragem, e outro que radicaliza o próprio conceito de periferia. Um garoto e sua relação litigiosa com a mãe, e no fogo cerrado da favela é ela quem faz o filho voar sobre a miséria do mundo, num efeito poético que a mim fez lembrar o Albert Lamorisse de O Balão Vermelho, embora não creia que tenha sido referência para os diretores. O segundo programa da noite foi duplo. O curta Lígia, de Nuno Ramos, e o longa Arábia, de Affonso Uchoa e João Dumans. Fiquei pasmo – como é que ninguém teve a ideia de Lígia antes? Os versos da música de Tom Jobim são cantados por William Bonner e Patricia Poeta, do Jornal Nacional, com sílabas compiladas da participação dos dois em edições específicas do noticiário da Globo, uma delas a do impeachment de Dilma Roussef. ‘Eu nunca sonhei com você/Nunca fui ao cinema/ Não gosto de samba, não vou a Ipanema…’ O efeito não é só crítico, com alguma dose de ridículo. O ‘deslocamento’ abre espaço para 1001 indagações. Amei. Fui jantar depois no Lamas e encontrei Carlos Alberto de Mattos, que participava de uma comemoração – os 20 anos da morte de um amigo. Achei bonito ser lembrado desse jeito. Ainda estava emocionado com o Arábia e até comentei com o Carlos Alberto que o filme mexe comigo de um jeito visceral. Gostei ainda mais do que na primeira vez que o vi, e olhem que, para mim, já era o melhor filme, nacional e/ou estrangeiro, da Mostra. Ainda vou voltar muitas vezes ao Arábia, aqui no blog. Na programação desta sexta, revi Baronesa, de Juliana Antunes, que venceu Tiradentes, um filme mineiro sobre a mulher na periferia, uma ficção nas bordas do documentário, ou vive-versa, muito interessante, e ainda estou chapado pelo segundo programa – o documentário Operações de Garantia da Lei e da Ordem, de Júlia Murat e Miguel Ramos. As manifestações de junho de 2013 vistas pelo ângulo da grande imprensa – e da Globo – e a desmontagem, na imprensa alternativa, especialmente na internet, do discurso contra a ‘baderna’ dos black blocs. O filme começa com um discurso de Dilma e termina com outro discurso, de Michel Temer, empossando seu ministério. Júlia e Ramos estão disponibilizando o Operações para debates, pois é esse o objetivo. Discutir a imprensa, e não apenas. O golpe, que foi e houve. De minha parte, gostaria de reunir a dupla de diretores num debate com Jorge Furtado, de O Mercado de Notícias. Cheguei a sugerir que a Mostra abrigasse o encontro, mas não levei muito adiante. Agora, depois de ver o Operações, estou convencido de que só teríamos a ganhar com a reunião desse trio.