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Cadê minha nave? (A nova antologia da Versátil)

Luiz Carlos Merten

23 de abril de 2015 | 00h07

E viva a Versátil, com duas novas antologias, uma de ficção-científica e outra de zumbis. Vamos à primeira. Confesso que tenho um sentimento ambíguo em relação a John Carpenter. Sua fama de príncipe do terror não me convence muito e os filmes dele de que mais gosto não são os mais bem conceituados. Assalto à 13.ª DP é um ótimo western urbano travestido de policial, Starman – O Homem das Estrelas é uma fantasia ‘quase’ spielbergiana e Aventureiros do Bairro Proibido, que nunca me cansei de rever na TV, traz Kurt Russell como o mais divertido dos clones de Indiana Jones, ou seja – Spielberg, de novo. Faço uma breve pausa para ressaltar que Carpenter tem fixação em diretores que admiro, mas não consegue ser tão bom quanto eles. Além de Spielberg, Howard Hawks. Assalto à 13.ª DP é o Rio Bravo/Onde Começa o Inferno dele. Enigma do Outro Mundo é o remake de O Monstro do Ártico, de Christian Nyby – que Hawks produziu (e teria supervisionado). Não gosto de À Beira da Loucura nem do remake de Aldeia dos Amaldiçoados. Eles Vivem, na antologia da Versátil, é Os Invasores de Corpos – ou Vampiros de Almas – de Carpenter, que bebe na fonte de Don Siegel sem acrescentar muita coisa ao comentário social do filme original. Um aspecto pouco comentado é que o próprio Carpenter é o autor da trilha, meio techno (e bem barulhenta). Muito valorizado é O Planeta Proibido, de Fred M. Wilcox, que fez história em Hollywood nos anos 1950. Antes, a ficção científica era coisa de pequenos estúdios, e feita com orçamentos limitados. O Planeta não só foi produzido por um grande estúdio, a Fox, como seu orçamento ultrapassou o milhão, e o filme ainda foi feito em cores e cinemascope. Adaptado de A Tempestade, de Shakespeare, lida com conceitos psicanalíticos (Id, incesto etc), o que poderia fazer dele um programa avançado para a época, mas me decepcionei na revisão porque o robô, que deveria ser essencial na história, vira alívio cômico, e infantilizado. O próprio monstro do Id, que Morbius (Walter Pidgeon) invoca, ciumento da atenção que sua filha dedica aos visitantes do planeta Altair, em que vivem, nada disso me pareceu fazer muito nexo, mas confesso que quando a filha, Anne Francis, se envolve com o visitante, e ele é Leslie Nielsen, o futuro atrapalhado de tantas comédias, aí foi demais para mim. Mas adorei o visual de Altair e do filme – areia cor de rosa, céu verde e duas luas, nenhum surrealista teria delirado mais. Também amo Joseph Losey, vocês sabem, mas Os Malditos/The Damned, feito entre duas obras maiores – Armadilha a Sangue Frio/The Criminal e Eva, ambas com Stanley Baker –, parece muito mais uma síntese dos defeitos do grande diretor, que estiliza o relato, como já fizera na estreia, com O Menino dos Cabelos Verdes, e cria uma metafísica (a pequenez humana diante da amplidão do universo) para encarar um flagelo da época, o perigo atômico. Jack Arnold é sempre divertido e A Ameaça Que Veio do Espaço, sobre alienígenas que se disfarçam como habitantes da pequena cidade em que caiu sua nave tem tudo a ver com Eles Vivem (e Vampiros de Almas). O filme é interpretado por Richard Carlson, que virou em seguida diretor (bom), e tem uma música ‘atmosférica’ muito legal. É das coisas boas da antologia com O Planeta dos Vampiros, do italiano Mario Bava, com Norma Bengell. Bava, o ex-diretor de fotografia que ‘inventou’ Barbara Steele e influenciou Federico Fellini – não foi o contrário -, ofereceu papeis muito interessantes para Norma e seu marido italiano, Gabriele Tinti. O Planeta dos Vampiros é sobre nave que chega a planeta distante e a tripulação começa se matar. Não parece original, mas a originalidade não está na trama, mas na forma como é contada.Finalmente, Fuga do Século 23, de Michael Anderson, sobre um futuro no qual a idade limite das pessoas é 30 anos. A primeira parte é bem interessante, com visual elaborado – o filme ganhou um Oscar especial por seus efeitos –, mas a segunda é o ó.

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