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Sem o tango, não dá

Luiz Carlos Merten

14 Janeiro 2017 | 11h40

BUENOS AIRES – Fomos ontem, Dib e eu, ao Viejo Almacén. Nenhuma passagem minha pela Argentina, e por Buenos Aires, estará completa sem um show de tango. E o do Vejo Almacén é ‘o’ show. A casa foi inaugurada em 1969. Fui pela primeira vez com a Doris em 1970/71. O Brasil vivia sob a negra ditadura e a situação não era melhor nos países hermanos, Uruguai e Argentina, mas eles tinham uma tradição cultural, cinematográfica, mais estável que a nossa e, com ditadura e tudo, eu, que já era jornalista – e crítico -, vinha para cá (e ia a Montevidéu) para ver os filmes proibidos no Brasil. São Paulo nunca foi minha Cinemateca. Montevidéu e Buenos Aires, sim, até pela proximidade de Porto Alegre. No Viejo Almacén, vi figuras míticas do tango. Virginia Luque, Edmundo Rivera, Anibal Troilo. Entre uma copa e outra, não pude deixar de comentar com o Dib quão privilegiado me sinto. Nos 70, em plena revolução do rock, eu exercitava minha latinidade. E vi – meninos, eu vi – Chalchaleros, Mercedes Sosa, Atahualpa Yupanqui, Ariel Ramirez, Alfredo Zitarrosa, que era o meu deus. Tem um disco de Zitarrosa só de milongas que é a coisa mais linda do mundo. ‘Niña, lo habias dicho si que estabas enamorada…’ No me esperes, Milonga de ojos dorados. Volto ao tango. Não existe dança mais bela, sensual. E há um ritual no tango. Na maior parte do tempo, concentrados nos próprios movimentos, os dançarinos não se olham nos olhos, mas quando o fazem… Teço as maiores fantasias enquanto assisto ao show. Os homens são viris, as mulheres, monumentos de feminilidade. Tango nasceu na zona portuária, o movimento de rufiões que se disputavam com facas e disputavam as mulheres. Putas… A dança tem esse caráter lístico, simbólico. Gardel e Le Pèra elevaram o tango à condição de uma das mais belas artes e depois veio – vieram – Piazzolla e Horacio Ferrer. Balada para Un Loco. Ya sé que estoy piantao, piantao… O tango moderno reencontrou-se no jazz. Reunión cumbre. Piazzolla e Gerry Mulligan. Quem nunca se emocionou com Adiós, Nonino não sabe o que é beleza. Tive uma prima linda. Teresa era negra. Eu a amava.Quando Teresa morreu coloquei o disco e chorei até me desidratar ouvindo Adiós, Nonino. Até hoje não consigo ouvir a música sem que venham as imagens, a presença de Teresa. São 10h30 da manhã em Buenos Aires, uma hora a menos que no Brasil – acá no hay horario de verano. No começo da tarde vamos para Mar Del Plata. Já sei que, na Rambla, há uma estátua de Piazzolla. E o monumento a Alfonsina Storni, no ponto em que ela entrou no mar para nunca mais voltar. ‘Te vas Alfonsina con tu soledad/Qué poemas nuevos fuiste a buscar…’ Alfonsina y el Mar, Ariel Ramirez imortalizado na voz de Mercedes Sosa num disco antológico (como Tom & Elis no Brasil) – Mujeres Argentinas. Tudo isso faz parte do homem que sou.