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Seleção Rio (3)/É hoje o fim!

Luiz Carlos Merten

15 de novembro de 2017 | 10h43

Qual é o mistério de Exercícios de Memória? Paz Encina com certeza dá conta do horror da ditadura de Stroessner no Paraguai e do impacto que teve sobre a família – os três filhos – o desaparecimento do pai, Agustín Gaiburú, que fazia oposição ao ditador. Isso está no filme, em falas desconectadas da imagem, e só no final aparecem as fotos dos personagens reais. Durante quase todo o tempo, Paz film?a crianças numa paisagem. O rio, a mata. Que mistério vem das profundezas? Das águas? Um filho fala da incerteza de não ter tido um cadáver para prantear, para enterrar. E as crianças, na águas, desconectadas de tanta tragédia, brincam na água com seus cavalos. São planos de uma beleza de cortar o fôlego. Mas a intenção da autora é mais secreta. Os exercícios de memória também, são delas, querendo refletir sobre esse Paraguai destroçado por uma guerra, e uma tríplice aliança, no século 19. A ausência de memória – da grandeza que o país já teve – talvez seja a grande tragédia paraguaia. Os velhos esperam (a morte?) em Hamaca Paraguaya, os jovens brincam, andam em círculos com seus cavalos. Os exercícios de memória, elegantemente filmados, remetem à tragédia de um povo. A Seleção Rio encerra-se hoje, quarta, 15, no Cinesesc, e amanhã, na sala da Augusta, inclusive, já começa o Mix Brasil. Começa hoje, no Ibirapuera, com a homenagem a Gus Van Sant e a apresentação de Me Chame pelo Seu Nome, o belo filme de Lucca Guadagnino. Para o encerramento da seleção, foram reservados o documentário Ex- Libris de Frederick Wiseman, sobre a Biblioteca Pública de Nova York, e o conceitual Edward II, de Derek Jarman, na minirretrospectiva do queer britânico. Acho que não contei que fui ver Minha Adorável Lavandaria, de Stephen Frears, no sábado, também na Seleção Rio (e na homenagem ao queer). Confesso que fiquei meio desconcertado. Gostei de rever My Beautiful Laundrette, mas não é um grande Frears. A Inglaterra da Dama de Ferro, quando Margaret Thatcher, a heroína do liberalismo, estava implantando a tal modernidade no país, está toda na tela. Uma perda de raízes brutal… Mas o filme é irregular – não sei se é essa a melhor definição. O par gay é cativante, Daniel Day Lewis e o garoto paquistanês cujo nome tenho de pesquisar. Vou parar um pouco. Pronto – chama-se Gordon Warnecke. Johnny e Omar. Tornam tão vivas as observações do roteiro de Hanif Kureishi, mesmo que a sensação de urgência do filme resulte em coisa mal-acabada. E eu não me lembrava de Rachel, a amante inglesa do tio de Omar. Durante todo o tempo tentava identificar a atriz. E vieram os créditos – Shirley Anne Field! Sobre essa eu não preciso de pesquisa. Shirley foi uma das vítimas de Karl Bohm em A Tortura do Medo, de Michael Powell; estourou no free cinema com Albert Finney em Tudo Começou num Sábado/Saturday Night and Sunday Morning, de Karel Reisz; participou do apocalíptico The Damned, de Joseph Losey; e como todo mundo tem seus pecados envolveu-se naquela extravagante aventura de J. Lee Thompson no Novo Mundo – Os Reis do Sol, com George Chakiris como guerreiro maia numa aliança com Yul Brynner, como um nativo-americano que chega do Norte. Jesus! Sobre Ex-Libris, procurem o texto de hoje do Caderno 2. Mas eu prometo voltar a Frederick Wiseman. Quando o entrevistei, no começo do ano – Wiseman me chamou em casa; seu celular anotou meu número enquanto eu tentava, e não conseguia, comunicação -, conversamos sobre seu método. Wiseman não entrevista, seus filmes não têm narração em off nem trilha musical. Como se faz um filme desse jeito? Os críticos dizem que são documentários ‘observacionais’, como ponto de vista de uma mosca na parede, o que o próprio Wiseman considera bem idiota. “Até onde sei, uma mosca não pensa, e eu tenho de tomar decisões o tempo todo, enquanto filmo, monto, etc’ – disse-me. Wiseman divide-se entre suas duas casas. Cambridge, Massachusetts, nos EUA, e Paris. Conversamos de Paris. Contou-me que fez, ocasionalmente, uma ou outra pesquisa na Biblioteca Pública de Nova York, mas nunca foi um frequentador, até por não morar na cidade. Como ele fez a pesquisa? Olhem a resposta – “A pesquisa é o filme. Fiquei lá durante 12 semanas, fuçando ao redor.” Gravou 150 horas de material, que reduziu na montagem para três. Wiseman acredita no instinto, e na sorte. Disse que o segredo é estar atento, e com a câmera ligada. Mas também revelou – “Às vezes, penso que captei uma grande coisa, e depois vejo na edição que não serve para nada.”

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