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Seleção Rio (1)/Memórias!

Luiz Carlos Merten

13 de novembro de 2017 | 10h03

Tenho escrito textos diários sobre o Festival do Rio, e estava certo que haviam sido subidos no online, mas no domingo, ao descobrir que Luiz Zanin e Maria do Rosário Caetano fariam a apresentação de Memórias do Subdesenvolvimento, procurei a matéria para acrescentar e não encontrei. Por dúvida das vias, acho melhor escrever meus próximos textos como posts, no blog. Escrevo sobre o que vi, no retrospecto. Fui ver, ou melhor, rever, Memórias, ontem à noite. Zanin e Maria do Rosário que me perdoem – não estou polemizando -, mas ela disse e ele reforçou que ‘muita gente’, as aspetas são minhas, considera o filme de Tomás Gutiérrez Alea o melhor do cinema latino-americano. Alea e Glauber Rocha, Terra em Transe. Nem f… Embora os protagonistas de ambos sejam intelectuais em choque com o mundo, achei até ofensiva com o Gláuber a comparação. Das minhas andanças pela América Latina, nos anos 1970, tenho outra visão. Privilegia o boliviano Sanjinés, o chileno Miguel Littin, com seu Chacal de Nahueltoro, algummexicano – o Fernando de Fuentes de Vamonos con Pancho Villa, pelo qual tenho loucura. O aspecto mais interessante da revisão de Memórias diz respeito à relação de Sergio com a garota. A primeira frase dele – ‘Seus joelhos são lindos’ – já bastaria para crucificá-lo nesse fogo cerrado das denúncias de abuso que, a partir de Hollywood, estão sacudindo o mundo. Toda aquela conversa de Elene de querer ser atriz e ele apresentá-la ao próprio Alea – como um diretor do ICAIC – e depois levá-la para sua casa parecem um roteiro sobre o que antes se esperava de um homem e o que hoje é proibido. As imagens de Brigitte Bardot são emblemáticas. Não, não, não, ela finge que resiste aos avanços do sujeito. E sim! Cede, porque, afinal, no cinema era isso que estava liberando as mulheres por volta de 1960 – poderem dizer sim. Não é assim até hoje? O empoderamento pode não ser só isso, mas também é escolher para quem a mulher quer dar. Elene/Daisy Granados faz seu joguinho. Resiste fracamente, chora no momento seguinte, mas no outro dia já está na casa de Sergio oferecendo-se para fazer a faxina. Quando o caso vai adiante, Sergio, o parasita burguês – que vive de rendas -, é absolvido pelo tribunal revolucionário. Incrível, fantástico. Não creio que Memórias seja esse filme extraordinário que nos foi pintado, mas gostei muito de vê-lo. Ficou mais interessante, ainda, nesse momento particular. E talvez seja só eu a ver certas coisas. Só eu? Ninguém me tira da cabeça que Terra em Transe nasceu da cena final de A Queda do Império Romano, de Anthony Mann, que Glauber pode muito bem ter visto em Cannes, já que passou no festival no mesmo ano de Deus e o Diabo na Terra do Sol. Há controvérsia, sei. Toda essa gente que estuda a obra do baiano nunca levantou essa possibilidade, fazer o quê? Agora, nunca tinha me chamado a atenção, ficou evidente que Glauber ‘chupou’ de Alea uma das cenas emblemáticas de O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro – quando Odete Lara e Othon Bastos cantam o diálogo de sua cena de amor. É o que faz Elene, ao voltar ao apartamento de Sergio – seu diálogo também é cantado, mas aí Glauber também tem de ser absolvido no tribunal da história. Uma, porque Memórias é de 1968 e O Dragão, de 1969, próximos demais para que o brasileiro tivesse visto o cubano. E, duas, porque na verdade Alea estava emulando Jean-Luc Godard e Anna Karina, Uma Mulher É Uma Mulher. Maria do Rosário chamou a atenção para aspectos essenciais, mas não ligou para o que, para mim, é o visceral. Sergio boceja muito no filme. No começo, principalmente. De onde vem esse sono? Esse tédio? Enfado de classe? Lembrou-me George Cukor, My Fair Lady. Rex Harrison ‘ensina’ Audrey Hepburn a ser uma dama. O coro canta – ‘Pobre Professor Higgins’. Mas a mise-en-scène de Cukor mostra outra coisa. Justamente nessa parte, Harrison está rindo, e comendo, e bebendo. Massacrada está sendo a garota das ruas, mas é por uma boa causa – para virar lady. Cukor, que era gay, estava sendo crítico com a classe social do professor, a aristocracia, em 1964. Alea, que até onde sei, também era gay, está criticando seu ‘príncipe’ (Sergio) ou o sistema que o absolve? E por que não deveria absolver, se Elene nos é pintada como uma falsa ingênua? Por mais que a revolução cubana possa ter sido machista, e foi, as Elenes desse mundo são muitas, as famosas santinhas de pau oco. De qualquer maneira, sorry, mas Glauber, em Terra em Transe, estava quilômetros à frente, estética e politicamente. Paulo Martins, o poeta, e Sara, a revolucionária. Não tenho muita certeza de que Terra em Transe seja ‘meu’ melhor filme latino. Sua posição varia. Mas Memórias, com certeza, não é.

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