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Seleção do Rio, avante cidadãos

Luiz Carlos Merten

07 de fevereiro de 2020 | 10h11

Foi falha minha. Gilson Packer, gerente do Cinesesc, me disse que a seleção do Rio na sala da Rua Augusta ia começar na semana anterior ao carnaval e isso me induziu a pensar que seria no dia 13. Para complicar, a Flávia, da Pró-Cultura, que faz a assessoria, me enviou e-mails que foram para o Spam. A consequência é que só hoje está saindo a matéria no Estado, mas deu tempo de eu ver ontem à noite o documentário de Tatiana Lohmann, Minha Fortaleza – Os Filhos de Fulano. Depois de Slam, Tati, como é chamada pelops que a cercam, traz de novo para o cinema a voz da periferia. Rappers cantam o amor de mãe e tatuam no corpo suas homenagens a elas. Santas mães guerreiras, que criam os filhos sozinhas, já que os pais somem no mundo. O filme tem muitas cenas belíssimas, mas não creio que alguma terá me impressionado tanto quanto aquelas em que os presos, acolhidos pelos familiares, saem da cadeia. No momento em que tanto se discute a segurança no País – e qualquer que seja o plano de extermínio adotado por essa gangue que se instalou em São Paulo, no Rio, no Brasil com o mesmo discurso discriminador e violento -, a cena me tocou muito porque vai contra a desumanização da periferia que é a tônica desses governantes. Não é um outro mundo, é só a interface do meu, do seu, do nosso mundo. Ilda Santiago fez a apresentação e lembrou a importância da parceria com o Sesc, com o Cinesesc. Durante uma semana, até quarta, 12, estarão sendo apresentados 21 títulos inéditos. Minha Fortaleza não passa mais, mas a Seleção Rio traz novos filmes de Ken Loach, Alain Cavalier, Abel Ferrara, Sergiei Loznitsa, Werner Herzog. Estou falando dos autores mais conhecidos, mas há um monte de documentários imperdíveis – Favela É Moda, The Capote Tapes, Toni Morrison – As Muitas Que Eu Sou, Fotografando a Máfia, Pauline Kael – O Que Ela Disse, O Desaparecimento de Minha Mãe, Diego Maradona, etc – que vale ver. Ilda lembrou a dificuldade que foi fazer o Festival do Rio no ano passado. Foi preciso recorrer a um crowdfunding, e a vinheta do festival nomeia todsos esses parceiros. A Seleção traz coisas que não consegui ver no Rio – os novos Loach e Abel Ferrara, Você não Estava Aqui e Tommaso – e outras que quero rever, como o impressionante Funeral de Estado, em que por mais de duas horas, e sem recorrer às palavras, meu amado Loznitsa, valendo-se de material de arquivo, reconstitui a pompa e circunstância do funeral de Josef Stálin. Ou Favela é Moda, de Emílio Domingos, que encontra um outro viés para falar de resistência da periferia, e Uma Mulher Extraordinária, de Sherry Hormann, cuja protagonista – real – é uma mulher turca que fugiu para a Alemanha para fugir a um casamento abusivo e foi morta pelo próprio irmão, num crime de honra. O Festival do Rio, só por ter-se realizado, face a circunstâncias tão negativas, já foi, em si mesmo, um ato de resistência. São filmes tão bons nas Seleção. Vê-los não é só um gesto de cinéfilo, mas também de cidadão.

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