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Seberg contra Todos (e o que Joana D’Arc tem a ver com ela)

Luiz Carlos Merten

15 de março de 2020 | 10h26

Fiz ontem o teste do coronavirus, e não porque esteja apresentando os sintomas, mas porque tenho mais de 70 anos, vim da França. Em Paris, passei mais tempo dentro do cinema que fora, e ainda estive no meio de uma manifestação – de estudantes e aposentados. Ou seja, grupos potencialmente transmissores e receptores. O médico achou-me bem, e o resultado sai até terça. Não creio que vá dar positivo, mas o negócio é esperar. A enfermeira, solícita, me informou que o teste ia demorar 5 minutos. O teste, sim, mas os procedimentos terminaram levando quase 3 horas, num ambiente isolado. Almocei e fui ao cinema, que emendei com teatro. Seberg contra Todos. Na expectativa de ver o filme com Kristen Stewart, reli antes o livro de Chris Fujiwara, The Life and Work of Otto Preminger. The World and Its Double. Reli os capítulos sobre Santa Joana e Bom-Dia Tristeza, que foram os dois filmes que o grande Otto fez com Jean. Mas, depois, não resisti. Segui lendo os capítulos sobre Exodus, O Cardeal, A Primeira Vitória. Com o The Adventures of Roberto Rossellini de Tag Gallagher, acho que são os dois maiores livros sobre autores que conheço, e olhem que acho as abordagens de Robin Wood sobre Alfred Hitchcock e Arthur Penn fascinantes. Aviso que o post terá spoiler. No filme de Benedict Andrews, de cara, o manager, querendo vender um papel a Jean, diz que não haverá teste do sofá, como com Preminger, sugerindo que Otto abusou dela. Fujiwara fez uma extensa pesquisa e nunca encontrou evidência de que Preminger tenha assediado, ou abusado sexualmente, de sua atriz. Ele abusou, sim, com seu autoritarismo, como abusava com todos, homens e mulheres, astros e principiantes. Fujiwara não poupa. Otto era um monstro nos sets, o que, no conceito de hoje, o coloca no rol dos autores como Roman Polanski e Woody Allen, mesmo que a acusação contra esses seja de ordem sexual. Fujiwara conta uma episódio. Preminger gritou com Kirk Douglas no set de A Primeira Vitória. Kirk era um astro, e grande produtor. Ninguém gritava com ele. Kirk foi até Preminger e, nariz com nariz, perguntou- “Está falando comigo?” Se a cena for verdadeira, e não há por quê duvidar, temos aí a origem de Robert De Niro no espelho de Martin Scorsese. Foi Preminger quem apresentou a garota do meio-Oeste, Jean, à França. Joana, afinal, é uma santa francesa, e Bom-Dia Tristeza, adaptado do best seller de Françoise Sagan, foi filmado na Copte D’Azur e em Paris, com uma cena adicional nos Pinewood Studios, de Londres. Fujiwara conta que alguém foi pedir a Deborah Kerr que intercedesse por Jean, porque Preminger a maltratava no set de Bonjour Tristesse. Deborah teria respondido – “Ela sabe lidar com ele melhor do que qualquer um de nós. E não é nem um pouco frágil.” Talvez Deborah tenha se enganado. Ela era frágil. Pressionada pelo FBI, por seu apoio a grupos radicais, como os Panteras Negras, Jean desmoronou e terminou por matar-se. O sistema contra Jean Seberg. Fujiwara conta uma cena documentada. Preminger ensaiava com a inexperiente Jean uma cena decisiva de Santa Joana. Queria levá-la ao limite. Disse – “Nós vamos ficar aqui até que você faça como eu quero, pode desmaiar.” Ela teria retrucado – “Não vou desmaiar e fico aqui até que você se canse e caia morto.” O roteiro de Benedict centra nas experiências de Jean em Santa Joana e com os Panteras Negras, porque, no fundo, o que o diretor faz, forçando um pouco a barra, é comparar Jean a Joana, o que pode não ser acurado, mas é uma liberdade poética (dramatúrgica?). Ele recria uma cena famosa de Acossado, o manifesto da nouvelle vague de Jean-Luic Godard. O desfecho. Patriciá olha para a câmera e, passando o polegar pelos lábios, pergunta o que é ‘dégalasse’. Nojenta. Foi a imagem de Jean que o FBI, a mando de J. Edgar Hoover, quis esculpir para o público norte-americano. No final, como Patriciá, Jean também olha para a câmera. Achei muito interessante o contraponto, e Kristen, que considero muito talentosa, segura a onda. O conceito do filme está numa frase de Jamal/Anthony Mackie para Jean. “Podemos não mudar o mundo, mas se mudarmos uma pessoa (já valerá a pena).” O pantera Jamal é interpretado pelo Falcão de Capitão América, interessante escolha. E, na real, o filme é sobre isso. O olhar do agente do FBI, Jack – Jack O’Connell, o Invencível de Angelina Jolie -, sobre Jean. Ele muda durante o filme, deixa de ser o patriota ingênuo que, no começo, acha que salvará a América. Subentendido fica que o patriotismo é o refúgio dos canalhas – o gay enrustido J. Edgar, que nem aparece, mas é reportado que gostava de ouvir a cama ranger nas escutas íntimas que seus subalternos faziam, invadindo a privacidade alheia; o sórdido Vince Vaughn; o outro agente que mata o cachorrinho. Há uma sublimação de Jean/Santa Joana, olhando para a câmera, mas o filme é sobre a salvação de Jack, que limpa sua ficha para se tornar um bom pai de família. Não consigo avaliar até que ponto Seberg Contra Todos é bom, mas gostei de ver o filme.

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