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Scorsese na Cahiers (e um recado de Bong Joon-ho)

Luiz Carlos Merten

09 de março de 2020 | 09h58

Saí de Paris no dia 6 e a Cahioers que encontrava nas bancas, inclusiove no aeroporto, era a de janeiro, com Virginie Efira na capa – Os filmes mais esperados de 2020. A de fevereiro, comprei em Lisboa. Martin Scorsese na capa, Le Grand Entretien – sobre O Irlandês. O episódio da demissãso coletiva ocorreu ainda em fevereiro, pode ser que essa edição seja a última. Scorsese fala de suas influ~rencias, John Ford e Howard Hawks, mas confessa que, no caso de The Irishman, Hawks falou msais alto. El Dorado, o crepúsculo dos heróis. Cita O Homem Que Matou o Facínora, mas tem objeções. O astaque da diligência, quew Ford filmou em estúdio. A interpretação de Lee Marvin, como Libertry Valance. Segundo ele, o ator surjoue, overacts. Ao contrário de John Wayne, Jam,es Stewart, Vera Miles e Woody Strode, na medida certa e que criam personagem humanos, Marvin cria um monstro, o que ele até entende – Liberty Valance representa o mal, que é preciso erradicar do Oeste -, mas não gosta. Scorsese é considerado um grande cinéfilo, e eu até concordo. Posso não gostar mais de suas ficções, mas os documentários, a carta a Elia Kazan e a viagem pelo cinema italiano, são deslumbrantes e o trabalho na Film Foundation é importante, resgatando clássicos da cinematografia universal. Amo Hawks e a sua trilogia – Rio Bravo/Onde Começa o Inferno, El Dorado e Rio Lobo -, mas Ford, para mim, está num nicho especial. Jean-Luc Godard, Luchino Visconti, Otto Preminger. Sou muito sensível aos grandes cineastas políticos dos anos 1960, aos revolucionários da linguagem, mas cada vez mais, e pode ser uma coisa geracional – à medida que envelheço -, tudo gira em torno de O Homem Que Matou o Facínora. Scorsese não gosta tanto porque é um filme de monstro, justamente o facínora de Lee Marvin (tão maravilhoso em Os Profissionasis, de Richard Brooks). E eu não gosto de O Irlandês porque é um filme de monstros, os personagens de Robert De Niro, Joe Pesci. As tais maquiagens para rejuvenescer, envelhecer, etc, realçam esse aspecto ‘weird’. Quem é essa gente? ETs? Quando, tardiamente, Scorsese quer humanizar o homem que pintava paredes – De Niro -, mostrando-o solitário e rejeitado pela filha, eu não sinto nenhuma empatia por ele. E ainda tem o Joe Pesci, que pode ganhar todos os prêmios do mundo, mas eu, particularmente, acho irritante. De todo o filme, e de toda a entrevista do Scorsese na Cahiers, retive, de qualquer forma, algumas coisas. A seu roteirista, Steve Zaillian, ele disse que o filme seria sobre a mortalidade. Bingo! E falando sobre Ford e Hawks, e seu amor, que compartilho, por eles, destacou que são artistas maiores do primeiro século do cinema. O segundo – o atual – é o da marvelização, pela qual sabemos que Scorsese não tem muito apreço. Mas, pensem bem, Bong Joon-ho, que é o homem do momento, está mais para Ford/Hawks ou para Marvel? Mesmo que seja uma terceira via, ele virou emblema do segundo século. Por falar em Bong, ele viu, na sexta, em Londres, Bacurau. Achou muito bonito, disse que tem uma energia única, “traz uma força enigmática e primitiva”. Ao ouvir os diretores Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles dizerem,na Q&A, que a situação do cinema brasileiro é terrível, enviou um recado. “Espero que o governo brasileiro apoie mais o cinema.” Sem esse apoio, o cinema da Coreia do Sul não teria chegado onde está.