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Scarlett como Lucy, a mulher que virou computador

Luiz Carlos Merten

05 de maio de 2020 | 11h25

Havia iniciado meu post anterior com referência à morte de Flávio Migliaccio. Vivo fora das redes, tenho restringido o noticiário. À noite, no Jornal Nacional, fiquei… Qual é a definição? Surpreso, chocado, triste? O ator a quem devo tantas emoções suicidou-se. Não deveria ter-me surpreendido. O suicídio, já faz tempo, é uma questão intelectual, moral. Albert Camus chegou a dizer que era a única questão filosófica séria. A interrogação é sempre por quê? Entendo perfeitamente o sentimento das verdadeiras pessoas de bem, não essas desqualificadas que se autoproclamam como tais, por aí. Desgosto, mal-estar. Se o Brasil fosse um cristal, teria rachado, trincado. Nas relações pessoais pode ocorrer uma rachadura irreversível, mas um país? Todo mundo se refere ao Coronavírus como inimigo invisível, mas o inimigo, o vírus de verdade, tem nome e endereço conhecidos. E não é um. É um grupo, nocivo ao bem comum. Deus não deve existir ou deve estar se lixando para a humanidade, para permitir que seu santo nome seja tão citado em vão. Desabafei, pronto. E o cinema, nisso tudo, afinal, o que é? Arte realista? Mas se é, o que fazer com os grandes abstratos que, com suas pesquisas, ao longo desses 125 anos, fizeram avançar a linguagem, nos deram… Prazer estético? Em casa, escrevendo sobre tantos clássicos, revendo filmes antigos, vendo os novos, não paro de pensar nessas questões. Alfred Hitchcock era com frequência cobrado pela falta de verossimilhança de seus filmes. Quando resolveu ser 100% verossímil – A Sombra de Uma Dúvida, de 1946 -, o filme, por bom que seja, raramente é citado entre os seus maiores. Verossimilhança = realismo. Sim, não? O realismo do cinema está na base da história, ou na construção dramática? O cinema é uma arte narrativa, tem de contar uma história? São questões que me perturbam muito, e se aplicam a um filme que revi no domingo. Luc Besson surgiu lá atrás, nos anos 1980, integrando a geração de neobarrocos do cinema francês. Jean-Jacques Beineix, Leos Carax e ele. Beinex fez filmes cults como Diva, A Lua na Sarjeta e Betty Blue. Carax evoluiu para se tornar um autor maldito (e reverenciado) com Sangue Ruim, Os Amantes do Pont Neuf e Holy Motors. Besson foi o que sempre teve menos consideração da crítica. A Imensidão Azul, O Quinto Elemento, Nikita, Léon/O Profissional. Virou megaprodutor de ação na EuropaCorp, mas não desistiu de seguir realizando. Tem uma queda pela animação, e existem recursos animados em Lucy e em Valérian e a Cidade dos Mil Planetas, mas é do filme de 2014, com Scarlett Johansson, que quero falar. Lucy não resiste a nenhum approach científico. Seria uma fake news, mas tem o porém. Lucy/Scarlett vive em Taiwan, é recrutada como mula. Carrega no próprio corpo uma droga poderosíssima, mas a embalagem protetora é destruída e o conteúdo é absorvido pelo organismo. Normalmente, Lucy morreria, mas aí não teríamos filme. Essa droga sintética é feita a partir do componente natural que, nas grávidas, solidifica os ossos dos bebês. Não deve ter o menor fundamento – não pode ter, por favor -, mas a tal droga expande o universo mental de Lucy. Em geral, usamos 20%, esclarece o cientista Morgan Freeman, e com esse patamar chegamos ao atual estágio de desenvolvimento. Os restantes 80% deveriam sedimentar, imagino, civilidade, humanidade, solidariedade, cultura, que é o que está faltando, mas foram pro brejo. Divago. A questão é que Lucy expande seu universo mental de uma forma nunca vista e atinge um estado em que seu corpo vira máquina que tudo vê, tudo sente, tudo prevê, tudo pode. É o Hal 9000. Sempre vi o filme como uma conceituação de Besson sobre o megacomputador de Stanley Kubrick em 2001, e me lembro de haver escrito sobre Lucy, no Estado sob o título A mulher que virou computador. Kubrick era obcecado pela inteligência artificial e desenvolveu o roteiro que Steven Spielberg melou – não é de seus grandes filmes -, A.I. Com toda a ação maluca, nonsense, de Lucy – Scarlett vira máquina de matar, perseguida pelo chefão oriental a quem dá o fim que ele merece -, o filme é muito mais ‘kubrickiano’ do que A.I. em suas viagens no tempo e no espaço. E Lucy, é bom lembrar, foi o fóssil que reescreveu a história da humanidade. Scarlett não tem esse nome por acaso. Revendo o filme, no domingo, dei-me conta de que Besson, numa sacada inteligente (genial?), misturou Kubrick com Alain Resnais, nosso tio da América, porque Morgan Freeman faz as vezes de Henri Laborit e Scarlett, a princípio assustada, depois poderosa, é a ratinha do seu experimento. Nada faz sentido de um ponto de vista realista, todas aquelas corridas e lutas. Tudo faz sentido como conceituação. Lucy me diverte, e intriga. Scarlett é maravilhosa, o que deveria ter sido em A Vigilante do Amanhã.

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