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Saudades de Spock

Luiz Carlos Merten

28 de fevereiro de 2015 | 01h19

Parecia tudo tranquilo. Tinha apenas uma matéria para o Caderno 2 de hoje – estou escrevendo passado da meia-noite, já no sábado – e era sobre Superpai, mas ela caiu porque entrou anúncio (e foi para o online). Íamos fechar cedo, às 3 da tarde, eu já preparava o texto de domingo, sobre o spaghetti nightmare, o terror italiano, e aí, passado das 2, quase 2 e 30, tive de enterrar Leonard Nimoy. Foi uma correria do cão, mas se há uma coisa de que gosto no jornalismo é da adrenalina de ter de produzir um texto em minutos. Leonard Nimoy! Por volta de 1970, ele escreveu sua autobiografia, que intitulou I Am not Spock, Não Sou Spock. Mas ele era, no imaginário de um infinito de espectadores ao redor do mundo. Nimoy já era ator de TV e participara de algumas séries quando foi chamado para integrar o elenco fixo de Star Trek/Jornada nas Estrelas. Quando a Enterprise começou a navegar na telinha, ninguém imaginava que a criação de Gene Roddenberry se tornaria um êxito tão longevo – e um evento planetário. Surgiram fãs de carteirinha, os trekkers, que migraram com a série da TV para o cinema e que vibraram quando JJ Abrams repaginou a saga intergaláctica, contando as aventuras de Spock e Kirk quando eram jovens. O vulcano ganhou um novo intérprete, e dos bons – Zachary Quinto -, mas Nimoy permanecia encravado no meu (no nosso?) imaginário. Ele morreu ontem, em Los Angeles, aos 83 anos, de complicações pulmonares. Deixara de fumar há 30 anos, mas já era tarde. Seus pulmões se haviam comprometido, não havia volta. Foi uma longa sobrevida. Comecei meu texto no Estado – Ele era único, e era múltiplo. Foi ator, diretor, poeta, fotógrafo, pintor, cantor. O papel de Spock colou tanto que Nimoy começou a se sentir prisioneiro. Rebelou-se, e escreveu o livro. Mas continuou sendo Spock aos olhos do público, e o aceitou. Dirigiu dois dos melhores filmes da série, Jornada nas Estrelas 3 – A Procura de Spock e Jornada 4 – De Volta para a Terra. De certo para fugir às grandes viagens no tempo e no espaço, dirigiu também filmes ‘menores’, sobre relacionamentos – gente como a gente. Três Solteirões e Um Bebê, O Preço da Paixão, As Coisas Engraçadas do Amor etc. Faz muito tempo que não vejo The Good Mother/O Preço da Paixão, mas, na época, realmente gostei do filme. Diane Keaton divorcia-se, descobre o prazer, negligencia a filha e é levada ao tribunal, numa batalha que poderá custar a guarda da garota. O direito da mulher ao orgasmo e o conceito de que o equilíbrio hormonal a fará, no limite, uma mãe melhor. Até onde me lembro, era bonito, avançado, apesar do tom discreto, quase neutro, e Diane Keaton e Liam Neeson, bem antes de virar brucutu, eram ótimos. Spock era tão metódico e racional  que Nimoy talvez gostasse de histórias de amor porque o sentimento possui uma força subversiva que manda a racionalidade para as cucuias e tanto pode organizar como desorganizar a vida das pessoas. Fica, como despedida, nesse post, sua saudação tradicional – ‘Vida longa e próspera’. Para nós, os que ficamos. Não sei de vocês, e para muitos parecerá irrelevante, mas eu vou sentir saudades de Nimoy. Spock, esse, vai viver para sempre, e até rejuvenesceu.

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