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Saudades de John Ford

Luiz Carlos Merten

23 de novembro de 2017 | 10h50

Já contei aqui da emoção que foi visitar Monument Valley, um solo sagrado do cinema, onde John Ford filmou seus grandes westerns. Andar naquela paisagem. Fomos, Dib Carneiro e eu. Sentia-me transplantado para outro mundo e depois reencontrei a sensação naquele Transformers. Por que isso? Todo dia tenho de encontrar dicas de DVD para um espaço que temos no Caderno 2. Tenho sido salvo pela Classicline e por Cult Classic, dois selos que lançam clássicos de Hollywood. No outro dia, descobri que saiu agora Crepúsculo de Uma Raça, Cheyenne Autumn, o último western de John Ford. Esta manhã, procurando nem sei mais o quê, trombei com o livro de Peter Bogdanovich na coleção Movie Paperbacks, ‘series edited and designed by Ian Cameron’. Antes de virar diretor irregular, mas com grandes filmes – Na Mira da Morte, A Última Sessão de Cinema, Lua de Papel, etc -, Bogdanovich foi um crítico importante e escreveu livros viscerais sobre Ford e Fitz Lang. Tenho o meu Olimpo dos livros de cinema. Não são livros que tenham o formato de obras ‘acadêmicas’ (da academia, mesmo). Se começa a ter asterisco ou nota de rodapé, paro, imediatamente. Pode ser preconceito, e é. Fazer o quê? Estava tão animado quando soube que iam reeditar as aventuras de Tarzan. Desisti na hora – para que aquelas notas todas, que não acrescentam nada? Jesus! Os ‘meus’ livros de cinema são os de Bogdanovich, o Hitchcock’s Films, de Robin Wood, o Roberto Rossellini de Tag Gallagher, o Otto Preminger (The World and Its Double), de Chris Fujiwara, o Visconti de Laurence Schiffano e algum outro que esteja esquecendo. Não são muitos, considerando os milhares que tenho em casa, colecionados ao longo dos anos (e das viagens). Bogdanovich começa seu John Ford em Monument Valley, reconstituindo sua set visit, quando o mestre filmava o crepúsculo (outono) dos cheyennes. Embora sua obra-prima seja Rastros de Ódio, a tragédia de um individualista, Ford, o chamado Homero de Hollywood, foi o gestor de epopeias de grupos, por meio das quais construiu uma ideia de ‘América’. Como se constrói uma civilização? Certamente que criando raízes, mas no cinema de Ford os grupos de colonos, de negros, de índios andam por essa terra bárbara em busca deles mesmos. É famosa a justificativa do diretor – depois de matar, com os seus westerns, mais índios que o General Custer, ele sentiu necessidade de voltar aos primitivos habitantes da ‘América’ – naquele tempo não se dizia nativo-americanos – para restituir sua dignidade roubada. Na trama de Crepúsculo de Uma Raça, os últimos remanescentes dos cheyennes – 286 homens, mulheres e crianças – abandonam a reserva em Oklahoma e iniciam a longa jornada de 1800 milhas em direção a Yellowstone, onde ficavam suas terras. O deslocamento provoca pânico nas cidades, onde os habitantes temem que os índios estejam vindo atacar. Um episódio divertido, cômico, num filme tão sombrio, é a partida de pôquer de que participa James Stewart. Os ‘selvagens’ são uns pobres velhos, e os jovens cheyennes impetuosos, como Sal Mineo, não têm armas. Richard Widmark faz o oficial da Cavalaria que segue o grupo. E em Washington, o velho secretário de Estado, Edward G. Robinson, reflete diante do retrato de Lincoln – e o reflexo no vidro funde os rostos dos dois – sobre os direitos dos índios. Era 1964, Ford estava com 69 anos – menos que eu -, mas já devia sentir que o mundo estava mudando, o cinema estava mudando, e não haveria mais espaço para ele. Seu western anterior, O Homem Que Matou o Facínora, já era sobre o fim dos mitos. Ford iniciou, a seguir, outro filme, que nem concluiu – Young Cassidy, sobre o dramaturgo e memorialista irlandês Sean O’Casey. Preparou o filme e rodou algumas cenas com Rod Taylor e Julie Christie, mas quem fez quase tudo foi Jack Cardiff, mantendo o crédito ‘Um filme de John Ford’, quando ‘O Rebelde Sonhador’ foi lançado. Na sequência, surgiu Sete Mulheres, que teve todos aqueles problemas. Patricia Neal teve o derrame e a produção ficou parada, antes que tudo voltasse a ser refeito com Anne Bancroft. Foi seu último filme. Estou aqui viajando. De repente, me deu uma vontade imensa de ver algum John Ford.

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