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Saudades de James William Guercio. James quem?

Luiz Carlos Merten

27 de fevereiro de 2018 | 14h27

Por mais interessante que seja Como Nossos Pais, e o longa de Laís Bodanzky foi decisivo para o debate sobre o lugar da fala das mulheres, no Brasil do ano passado, ainda tenho para mim que chegamos uns 40 anos atrasados no tema. Pode ser que me engane, porque estou trabalhando com a memória, que é traiçoeira, mas em 1978, no ano de O Franco-Atirador, havia, entre os indicados para o Oscar, um filme de Paul Mazursky, Uma Mulher Descasada. Ele não foi indicado para melhor diretor, mas sua maravilhosa atriz, Jill Clayburgh, foi indicada para a estatueta que Jane Fonda venceu, pela segunda vez, por Amargo Regresso. Uma Mulher Descasada, de alguma forma, antecipa, para mim, Como Nossos Pais, mesmo que o foco de Laís esteja na relação entre mãe e filha, e como aquela mãe, Clarice Abujamra – o motor do drama -, na verdade esteve à frente de Maria Ribeiro, digo, a personagem. Os transformadores anos 1960, o mítico Maio, cujos 50 anos estamos comemorando. Jill, há exatos 40 anos, já antecipava Maria. Como Nossos Pais, que possui belas qualidades, passa hoje na TV paga. Canal Brasil, 22 h. Talvez seja nosso destino, mesmo na era da internet, vivermos a reboque, já que estamos imersos numa cultura periférica. Quero pegar carona para o post, que não é exatamente sobre isso, mas talvez seja. Fui ver agora pela manhã o Motorrad de Vicente Amorim, que estreia na quinta, 1.º. Não fazia a menor ideia do filme que ia ver, embora tivesse visto o cartaz, com motoqueiros. Cauã Reymond já montou na moto em dois filmes recentes, Reza a Lenda e Não Devore Meu Coração. Não gosto particularmente de nenhum, mas vamos lá… De onde vem esse fascínio do cinema brasileiro pela moto? Pode ter a ver com nossa urbanidade. As motos, e motoqueiros de capacete, estão incorporados ao cotidiano do paulista. Quando vou ao Rio, a trabalho ou passeio, vejo cada vez mais motos. E, nas vielas dos morros, no Rio, a TV também as mostra cada vez mais. Motos muitas vezes associadas à transgressão, quando não à criminalidade. Digamos que, em Hollywood, elas tenham irrompido no começo dos anos 1950, com o mítico Marlon Brando de O Selvagem. Em 1963, Steve McQueen montou naquela moto em Fugindo do Inferno e, cinco anos mais tarde, Clint teve a dele, em Meu Nome É Coogan. No ano seguinte, 1969, as motos viraram sinônimo de liberdade e validaram novas formas de produção, mais independente, com o sucesso de Sem Destino. Mas não estou pensando na obra de Dennis Hopper e no que representou o encontro da geração do álcool (o personagem de Jack Nicholson) com a da erva (Peter Fonda e o próprio Hopper). Na trilha de Easy Rider, e na verdade até antes – The Wild Angels, de Roger Corman -, as motos invadiram o imaginário do cinéfilo. Eu tenho a minha moto para cavalgar na lembrança. O mais belo filme, o mais estiloso. Electra Glide in Blue, de James William Guercio, também o autor da trilha, fotografia (suntuosa) de Conrad Hall. O ano era 1973 e a Electra, da Harley-Davidson, era a moto dos cops, mas a paisagem não era urbana. A estrada, on the road. Por que tenho agora a impressão de estar retrocedendo no tempo? Por causa dos quadrinhos? Um grupo de motoqueiros transpõe um portão – portal? – que tanto pode levar ao paraíso quanto ao inferno. Começa uma perseguição sem muita lógica. Violência, erotismo e glamour. Morte. A fisicalidade dos homens, das mulheres. E o perigo representado pelos motoqueiros de preto, com capacetes que remetem à mandíbula estirada do alien. Não devorem o coração de nossos(s) herói(s). Estilo, estilo, estilo. Substância zero. Há 45 anos até eu era jovem. A Electra Glide ficou comigo. Que a nova geração fique com suas máquinas quentes, se tiver saco.

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