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Saudades de Iacanga, o barato da sociedade alternativa no ETV

Luiz Carlos Merten

13 de abril de 2019 | 10h17

Um ano depois do último Festival de Águas Claras surgiu o Rock in Rio. Tudo faz sentido quando se assiste a O Barato de Iacanga. Como faz regularmente, Amir Labaki foi apresentar o documentário de Tiago Mattar no Sesc 24 de Maio. Contou de sua alegria de apresentar o trabalho de um garoto que havia começado no É Tudo Verdade. E Tiago, respondendo ao afago, prometeu não chorar – imaginem sua emoção. Começou confeccionando crachás no ETV e este ano recebeu o dele, como cineasta. Em Porto Alegre, sabia vagamente que houve um tal Woodstock brasileiro, mas não conhecia a história. Não havia memória daqueles dias de música e liberdade, em plena ditadura. Agora, existe. O filme conta como um churrasco com música na fazenda da família de Antonio Cecchin Jr., o Leivinha, virou o primeiro festival, que atraiu 70 mil pessoas em 1975. Seis anos depois foram 100 mil no segundo; em 1983, 70 mil, de novo, no terceiro. Tudo começou como um sonho de hippies, viva a sociedade alternativa. No palco de Iacanga se apresentaram Novos Baianos, Raul Seixas, Gilberto Gil, Gonzaguinha e Gonzagão, Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal, Anastásia. O festival não era só de rock. Era de música. Conviviam todas as tribos – João Gilberto fez uma apresentação memorável, cantando naquele registro doce dele. Na madruga, Hermeto foi para a extremidade do palco e ficou três horas tocando flauta para malucos beleza que se recusavam a dormir para continuar a ouvi-lo. Eram outros tempos. Faltava comida, conforto, mas havia maconha. O paraíso era ali. Homens e mulheres nus, crianças soltas entre os adultos. Que lembrança terão de tudo aquilo? É uma coisa que mexe muito comigo. Anos atrás, São Paulo festejava 450 anos. Foi montado um palco na esquina mais famosa da cidade – Ipiranga com São João. Caetano Veloso foi passar o som. Eu, que vivo pelo Centro, estava lá. Havia um menino, 4 ou 5 anos, que brincava, jogando bola. Lembro que, na época, tentei mas não consegui um orelhão funcionando – já naquela época – para chamar o jornal. Alguma coisa acontece no meu coração… Não sou muito chegado a registros de imagem, mas aquilo teria dado uma bela foto. E o garoto pode muito bem chegar aos 500 anos da cidade. Pensei que, em 2054, não estarei aqui, mas o Estado, seja lá em que formato, poderia muito bem entrevistar esse garoto, que será adulto, quase velho. Divaguei. De volta a Iacanga, empresários farejaram o sucesso, quiseram investir. O sucesso acabou com a sociedade alternativa. O quarto festival acabou sob a chuva. Nunca mais Iacanga, que virou uma fazenda de plantação de laranjas. Dos seus escombros, nasceu o Rock in Rio. Como em Cine Marrocos, havia uma serpente infiltrada. A polícia guardou distância, mas lá no meio havia um fotógrafo que registrava tudo – a ‘droga’, a ‘pouca vergonha’ que iam servir na caçada da ditadura aos subversivos hippies. O fotógrafo sem noção certamente votou no coiso. Tem saudades da ditadura, comenta o ‘golpe’ das diretas já. É outro a tentar distorcer a história. O Barato de Iacanga terá sessão neste domingo, 14, no IMS. O ETV está terminando. Apesar das dificuldades – tenho saudades do Cinearte, o festival perdeu sua melhor sala (com o Cinesesc) -, talvez seja o melhor festival de documentários dos últimos anos. Tenho visto coisas muito boas.

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