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Saudades de Elsa Lanchester

Luiz Carlos Merten

28 de novembro de 2012 | 12h56

Que dia de louco, ontem, em São Paulo. Saí de casa debasixo de chuva para o Hotrel Transamérica, para a coletiva de Jane Fonda. Saí do hotel, duas horas depois, sob um sol de rachar e à tarde peguei mormaço, chuvisco. De noite fui ver o ‘Macbeth’ de Bob Wilson no Teatro Municipal. Não gostei muito da ‘Ópera dos Três Vinténs’, gostei demais da ‘Lulu’. E a ópera de Verdi? Gostei demais dos cantores, e da Anna Pirozzi, a soprano que faz Lady Macbeth, mas não curti muito a montagem nem a própria ópera, que não conhecia. Verdi foi o compositor do Risorgimento e só isso explica a importância que ele confere à cena da floresta de Birnan, como levante ‘popular’ contra o autoritarismo do rei. “Pátria oprimida! Pátria oprimida!’ Verdi podia estar cantando a Escócia, mas seu objetivo era outro, com certeza. Sem colocar em xeque a musicalidade do dueto do ato 1 nem a famosa cena do sonambulismo do ato 4, não creio que o libreto, em si, dê conta da transformação da lady (e da sua loucura), mas esta é uma velha questão do texto original, da mesma forma que as três bruxas virarem legião pode ter fundamento em termos de ‘coro’, mas dilui a presença cênica, muito mais forte como trio. A montagem, como sempre em Bob Wilson, privilegia o cinema mudo como cena fundadora, mas eu confesso que me cansava, a três por dois, ver aqueles recortes que criavam ‘telas’ com imagens recortadas (tipo lanterna mágica). Mas ele não sabe fazer outra coisa?, pensava com meus botões (e tentava antecipar o que viria na sequência). A cantora é realmente muito boa, mas volta e meia tinha vontade de rir porque a marcação cênica era por demais calcada na Elsa Lanchester de ‘A Noiva de Frankenstein’, de James Whale, com suas mãos crispadas e o olhar ensandecido de ‘poupée’ assassina, como me lembro de ter lido, alguma vez, em algum livro ou revista franceses. Imagino que tudo isso seja considerado herético pelos puristas de ópera. Cheguei a pensar em deletar o post, pensando na reação de meu amigo João Luiz Sampaio, mas resolvi deixar. Dessa leva de Bob Wilson em São Paulo, só a Lulu me convenceu.

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