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Saudades da primavera de Praga (meu adeus a Jiri Menzel)

Luiz Carlos Merten

08 de setembro de 2020 | 11h08

Vivo nesse meu mundo paralelo. Ontem, acordei e fiquei lendo, antes de iniciar as atividades do dia. Não liguei TV. As notícias se repetem. Em quase todo mundo ocorrem novos surtos de coronavirus. Populações sem máscara, aglomerações. Aonde isso vai parar? Meu editor, Ubiratan Brasil, me ligou pedindo um texto sobre Jiri Menzel, que morreu no fim de sermsna, mas o anúncio foi feito somente na segunda pela viúva. Jiri Menzel! Viajei nas lembranças. O cinema checo dos anos 1960, a nova onda mais luminosa do cinema mundial. A primavera de Praga, aqueles oito meses que, em 1968, fizeram sonhar com um comunismo libertário, de face humana. Até a Academia de Hollywood rendeu-se aos checos – Jan Kadar e Elmar Klos ganharam o Oscar de melhor filme estrangeiro de 1965 com A Pequena Loja da Rua Principaal. Dois anos depois o vitorioso foi Jiri Menzel, com Trens Estreitamente Vigiados. A vida vista de uma estação de trens, numa pequena cidade. Neckar recebe do dirigente nazista a missão de vigiar os trens e gasrantir que não exista espionagem. Mas ele está mais preocupado- todo mundo na estação está – com o sexo. Vai para a cama com a garota, mas está tão ansioso que falha. Mortificado, e para mostrar que é homem, une-se a ela para explodir um trem. Vira herói, só para compensar sua impotência momentânea. O que é o heroísmo? Quando os soviéticos invadiram Praga e chegaram naqueles tanques, Kadar foi para os EUA, mas não se adaptou em Hollywood. Sua obra tão promissora tornou-se decepcionasnte. Menzel, por sua vez, ficou quasse uma década sem dirigir, mas voltou com força e, em 2007, venceu o prêmio da crítica em Berlim com I Served the King of England. Anos depois, e de novo na Berlinale, foi homenageado com um prêmio de carreira. Eu estava lá, nas duas vezes. Se vocês procvurarem no blog encontrarão os post que escrevi na época. Um deles é sobre os dois Jiris -o outro, o Weiss, que dirigiu Romeu e Julieta nas Trevas. Tão bom, tão lírico o cinmema da antiga Checoslováquia nos anos 1960. Um Dia Um Gato, de Vojtech Jasny, Os Amores de Uma Loira, de Milos Forman, As Pequenas Margaridas, de Vera Chytilova. Toda uma geração condenada ao silêncio, ou lançada no mundo – a diáspora checa. Milos Forman foi o único que se deu bem nos EUA. Ganhou duass vezes o Oscar, por Um Estranho no Ninho e Amadeus, mas o ‘meu’ Forman norte-americano foi o de Na Épooca do Ragtime, um poderoso ataque ao racismo com base no romance de E.L. Doctorow, com aquele ator negro genial, Howard E. Rollins. Viajei nas minhas lermbranças do cinema checo. Fiz o meu material do dia – o Terçou, filmes na TV – e iniciei outra viagem. Bira me pediu um material sobre o 11 de Setembro. A trilogia informal de Steven Spielberg – O Terminal, Guerra dos Mundos, Munique -, os episódios de Ken Loach e Danis Tanovic em 11 de Setembro. Loach foi muito criticado por lembrar outro 11 de setembro, em 1973, o golpe ontra Salvador Allende, no Chile, que teve participação dos EUA. Como não lembrar que Doris e eu estivemos no Chile um ou dois meses antes, quando a direita desestabilizava o país – vejam o Nanni Moretti, Santiago Itália. Foi uma segunda de reflexão, de emoção. Às 8, Bolsonaro fez um pronunciamento na TV. Houve panelaço – em Pinheiros e em todo o Brasil. Hora de gritar – ‘Fora!’ Depois disso, revi Viva – A Vida É Uma Festa. E não é?

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