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Santos e pecadores

Luiz Carlos Merten

06 de março de 2013 | 11h53

Recebi ontem em casa a nova caixa da Versátil, que na verdade consta de um lançamento avulso mais uma caixa de Roberto Rossellini. Sempre tive vontade de ver Viva l’Italia, que o grande Roberto fez em 1960, um  ano antes de Vanina Vanini. Rossellini estava terminando sua fase cinema e logo-logo ia começar a fazer filmes para TV, convencido de que uma nova etapa estava se iniciando, não apenas para ele, mas para o audiovisual. Depois de haver deasdramatizado o roteiro e dado o pontapé do cinema moderno com Viagem na Itália, de 1954, Rossellini desiludiu-se com a mídia. Disse que o cinema havia ficado absolutamente vão – nos anos 1960, ainda sob o impacto da nouvelle vague – e adotou a televisão, que lhe interessava pelo aspecto pedagógico. ‘Ela não transmite mensagens, mas oferece ao espectador uma série de informações que o deixam livre para julgar’. Rossellini era um sonhador porque na Itália, principalmente, o fenômeno Berlusconi está muito ligado à TV, que ele controla, ou então o público alegremente abriu mão de julgar por si mesmo, preferindo as informações já codificadas para uma massa que não está muito interessada em pensar. Mesmo me arriscando a receber uma paulada, Rossellini fez em 1959 seu último grande filme – para mim. De Crápula a Herói, Il Generale della Rovere, que nunca sei se gosto pelo filme ou se pelo personagem, e o ator, Vittorio De Sica, no maior papel de sua carreira. Reconheço a importância de Rossellini, que foi farol para inúmeros autores (na França, no Brasil etc), mas o acho meio porre e os seus telefilmes são didáticos e cansativos, como bem assinala Jean Tulard no Dicionário de Cinema. Tergiverso um pouco, mas é que hoje, ao pegar o que achava que era a caixa do Rossellini, vi que a Versátil, provavelmente nas minhas férias, ou em fevereiro, quando estava em Berlim, me enviou outra caixa (acho que de Fritz Lang), mas com outros DVDs dentro. Vagas Estrelas da Ursa, de Luchino Visconti, e O Santo Relutante, de Edward Dmytryk. Gosto tanto de Visconti que vocês talvez se surpreendam de me ouvir falar agora do Dmytryk, mas é que eu tenho uma história com este filme. No começo dos anos 1960, aos 15 anos, tinha muito mais certezas que hoje e uma das minhas primeiraas certezas, tão logo tomei consciência do macarthismo, era de que devia desprezar Dmytryk por haver colaborado com a Comissãso de Atividades Antiamericanas do senador McCarthy. O curioso é que, já na népoca e sem haver lido o livro com a entrevista que Michel Ciment fez com ele, fazia a distinção entre a delação de Elia Kazan e a de Dmytryk, tendendo a absolver o primeiro (que também era masior cineasta). Como fã de westerns, admirava o Warlock, Minha Vontade É Lei, mas era uma exceção. Pois foi com O Santo Relutante, de 1962, que tive a ‘minha’ revelação de Dmytryk. Ele vinha de uma série de filmes ambiciosos, mas não necessariamente bons, como Os Deuses Vencidos (com Marlon Brando e Montgomery Clift), o citado Warlock (a exceção, com Henry Fonda e Richard Widmark), O Anjo Azul, remake do clássico de Josef Von Sternberg, com May-Britt, e Pelos Bairros do Vício, com a jovem Jane Fonda. E aí veio O Santo Relutante, um filme pequeno, que me causou uma funda impressão, e até hoje tento entender por quê. Adorei a história de São José de Copertino, tal como Dmytryk a conta, mas até onde me lembro o amor pelo filme liga-se à presença de Lea Padovani, uma atriz que Dmytryk já dirigira – em Give Us This Day/Christ in Concrete, O Preço de Uma Vida, de 1949 -, e que eu já vinha admirando através de Pão, Amor e…, de Luigi Comencini; Os Amantes de Montparnasse, de Jacques Becker; e A Princesa de Clèves, que Jean Delannoy adaptou do romance de Madame de Lafayette. Havia alguma coisa de gélido na sexualidade de Lea no filme de Delannoy que mexeu comigo. Quando a revi, no Dmytryk, num papel bem diferente, fiquei tão chapado que passei a pensar em Lea como a única outra atriz, se fosse um pouco mais velha, que poderia ter feito Rosario Parondi, em vez de Katina Paxinou, no meu adorado Rocco. Dmytryk de alguma forma virara um faz-tudo em Hollywood e emendou sua biografia de santo com os (despudorados) Insaciáveis, que adaptou do best seller de Harold Robbins, e que me parece melhor (muito!) que O Aviador, de Martin Scorsese, que conta a mesma história, ou quase. Comecei o post falando de Rossellini, e o cristianismo impregna a obra do pai de Isabella. Termino (o post) com o filme cristão, mas iconoclasta – vocês vão ver -, de Dmytryk. Se ele ainda precisava de absolvição, num fim de carreira que foi complicado, Dmytryk ainda fez outro grande filme que tasmbém foi resgatado recentemente em DVD, Miragem. Se o seu cinema fala sempre de segunda chance, após a delação, o thriller com Gregory Peck é o que mais diretamente aborda o assunto.

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