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Santiago, Itália, e eu confesso que vivi. Leiam, e descubram

Luiz Carlos Merten

27 de junho de 2019 | 10h13

Acabo de dar entrevista na Rádio Metrópole de Salvador, conversando com Mário Kertész sobre o documentário de Petra Costa, Democracia em Vertigem, na Netflix. Havia entrevistado a Petra sobre as motivações que a impulsionaram a fazer mais esse filme na primeira pessoa, mas aí era ela, a voz dela e hoje, com o Mário, fui eu, com o espanto e maravilhamento que me produziram seu filme. No intervalo- entre o filme da Petra e a entrevista com Mário -, ainda vi, finalmente!, Santiago, Chile, de Nanni Moretti, sobre o golpe do General Pinochet, monitorado pela CIA – não é teoria da conspiração, documentos da agência não deixam dúvida quanto a isso -, e o trabalho humanitário da embaixada italiana na capital chilena, acolhendo e, depois, concedendo o status de refugiados políticos aos perseguidos pelo regime instaurado com tanta violência. Um dos entrevistados por Nanni, um militar acusado de sequestro, tortura e assassinato, nega tudo e diz que lhe deu a entrevista sob a garantia de imparcialidade, ao que o cineasta reage com veemência – ‘Ma io sono sono imparciale.’ Ninguém mais consegue ser imparcial nesse mundo louco, doente, corrompido. Como ter confiança nas instituições? Na Justiça? Estamos vivendo um processo profundo de quebra de confiança nas relações pessoais e políticas, como o que o cinema flagrou após o escândalo de Watergate, nos EUA. No Brasil, quem está fazendo esse trabalho é a teledramaturgia – da Globo. No hospital, onde o tempo parece suspenso, a gente cria rotinas para fazer a hora avançar. Via até novelas – vou incluir Malhação e depois Órfãos da Terra, Verão 90 e A Dona do Pedaço. Nunca consegui me ligar na última, mas o texto de Walcyr Carrasco – é um raro texto dele sem papel para Cláudio Fontana -, com suas relações familiares e econômicas, reflete bem o Brasil sob o Messias, ou será o Anticristo? Divago, sei, mas quem me segue sabe que faço sempre assim e as coisas terminam fazendo sentido. Já contei muitas vezes, no blog, como fui ao Chile pela primeira vez em 1973, meses – semanas – antes do golpe de 11 de Setembro. O Congresso paralisara o governo, os empresários desabasteceram o país. Nos hotéis, tínhamos tudo. Nos supermercados, prateleiras vazias, para instigar a reação popular. O governo instituíra uma taxa para o turismo. Se não me engano, cada pessoa tinha de pagar pela permanência, uma diária de 70 escudos, equivalente a um dólar, que não valiam nada. E éramos obrigados a fazer o câmbio oficial. Mas havia o câmbio negro, o mercado negro. Vamos deixar os ‘negros’ fora dessa, para evitar conotações racistas. No mundo paralelo, um dólar valia 100 vezes mais – 7 mil escudos! E foi assim que o Chile foi levado à bancarrota, para que o Messias deles e seus Chicago boys viessem salvar a pátria. Salvar? Foi indescritível a emoção que vivi, vendo o filme de Nanni Moretti. A emoção daquelas pessoas lembrando os anos da Unidade Popular. Aquela crença, quase religiosa, de que um outro mundo era possível. Confesso que vivi – vivemos. Doris, minha ex, estava comigo. E creio que, a despeito de tudo, do quanto, talvez, a tenha decepcionado, o fato de termos vivido aquele sonho, aquela euforia, nos manteve amigos até hoje. Temos uma filha, também, e isso faz toda a diferença, mas creio que a origem de tudo está naqueles anos, quando viajávamos ao Chile, Peru, Bolívia, quando percorríamos a Argentina e o Uruguai, descobrindo a América nuestra. Conga e poncho foram nosso rock’n’roll. A Cantata de Santa Maria Iquique, o nosso Tommy, o nosso The Wall. As afinidades eletivas. Achei, depois, erroneamente, que estava vivendo outro processo similar, mas dele despertei como de um pesadelo. E aqui estou para dizer que vejam, por favor, Santiago, Chile. Digo, e repito sempre, que não existem manuais para se ver um filme. Cada um coloca sua inteligência, sua sensibilidade – suas coisas. Pessoas sentadas em poltronas contíguas podem viver processos muito diferentes. Mas, se você lê esse blog, e chegou até aqui nesse post, é porque comunga certas ideias comigo. É interessantíssimo ver como Nanni Moretti esclarece a derrocada de Dilma Roussef. Ao falar sobre o Chile de Allende, e Pinochet, ele pinta o de Dilma, e do Congresso que a derrotou, no espetáculo de horrores que foi a votação do impeachment na Câmara do raposo Cunha. Vejam Democracia em Vertigem, na Netflix, e Santiago, Itália, nos cinemas, ou melhor, no Belas Artes. Só espero que a sequência dessa história não seja a mesma, e não ingressemos na noite da ditadura do coiso chileno.

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