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Santiago a mil!

Luiz Carlos Merten

11 de janeiro de 2019 | 00h03

SANTIAGO – Cá estou. Cheguei no aeroporto passado das 5, no hotel, em Providência, à 6 e pouco e ainda deu tempo de correr à Cineteca Nacional, no Centro Cultural de La Moneda, para assistir a um programa de cinema dentro do Santiago a Mil. Há dez anos, por aí, estive no Chile com Dib Carneiro e Gabriel Villela, que apresentava seu Ricardo III nesse grande evento de artes cênicas e visuais que movimenta a capital chilena em janeiro. No período em que estarei aqui, até 17, na quinta que vem, espero conseguir ver alguma coisa – bastante? – do Santiago a Mil. Confesso que chorei. Na aproximação do Chile, o piloto pede que todo mundo se sente e amarre o cinto de segurança para a travessia da Cordilheira dos Andes. É um dos mais belos espetáculos da Terra, e eu confesso que chorei de emoção, diante de tanta beleza. Desde 1973, quando visitei pela primeira vez o Chile, com minha ex, a Dóris, pouco antes do golpe militar que depôs (e no qual morreu) Salvador Allende, voltei muitas vezes ao país. Naquela vez, fizemos a travessia da Cordilheira por terra e era fim de outono. As árvores de folhas amareladas e os picos nevados dos Andes ficaram gravados para sempre no meu imaginário. Depois, revi o espetáculo de cima, nas sucessivas vezes que atravessei a Cordilheira de avião. Reencontrei o Chile belo como sempre, mas também fiquei chocado. Ao lado do prédio mais alto e moderno da América Latina, a típica exposição de miséria, seja chilena ou brasileira, produto da extrema desigualdade social. Muita gente pedindo dinheiro na rua, catando comida no lixo, um horror. Como achei que não daria tempo de ver la Canción de la Tierra, de Gustav Mahler, no Teatro da Universidade do Chile, preferi arriscar e ver Sophie Calle – Sin Titulo, na Cineteca. Fazia uma vaga ideia de quem era. Artista francesa que fez de sua vida o tema central de sua obra, Sophie mistura fotografia, texto, vídeo e instalações sempre provocativas. Seus projetos parecem malucos – seguir um cara em Veneza, passar uma noite branca, sem dormir, no alto da Torre Eiffel e convocar pessoas para lhe contar histórias que a mantivessem acordada – 16 mil (mil!) atenderam à convocação -, filmar a morte da própria mãe, à espera de uma ‘revelação’ e pedir a várias amigas, incluindo Jeanne Moreau, que lessem a carta em que um homem anuncia à mulher que está indo embora… Fiquei chapado. Jeanne, com aquela voz, lê o cara dizer que ‘nosso amor’ ficará sempre vivo na lembrança do período em que nos amamos e faz uma observação genial, logo ela, que sempre foi amiga de seus ‘exes’. Mais quelle bêtise, mas que idiotice! Le salaud, menteur, o fdp, mentiroso. Gostei muito de ter visto o documentário e Sophie Calle veio de encontro, de forma visceral, a preocupações que estou tendo sobre a vida, o amor, a morte. Vim ao Chile por um motivo específico, que terminarei revelando, mas sinto que já estou no lucro com o Santiago a Mil.